Os candidatos e eleitos pelo Círculo Eleitoral de Braga à Assembleia Constituinte de 1975 foram homenageados no passado domingo, no Teatro Jordão, numa cerimónia emotiva sob a égide do programa «48 anos a não esquecer. 50 para celebrar».
Promovido pela Comissão de Homenagem aos Democratas do Distrito de Braga, o evento teve como ponto alto o momento em que os homenageados e em alguns casos os seus representantes subiram ao palco numa manifestação de reconhecimento pela liberdade conquistada com o seu contributo.
O Coordenador da Comissão justificou a cerimónia com o objectivo de celebrar a democracia e recordar, “com reconhecimento e gratidão, todos aqueles que se candidataram em 1975 às eleições para a Assembleia Constituinte e que foram eleitos, dando corpo à esperança colectiva da liberdade”.
“Não evocamos apenas a memória. Ousamos ir mais longe e confrontamos os mais novos com a resistência, com os testemunhos das mulheres e dos homens para que pudessem ouvir de viva-voz as suas histórias e como foi viver em Portugal, durante 48 anos, sem democracia e sem as amplas liberdades de que gozam actualmente”, afirmou Paulo Silva. “É um marco inegociável na história de Portugal”, continuou. “Sabemos bem que o percurso que então vos levou a sentarem-se na Casa da Democracia, eleitos em total liberdade pela esmagadora maioria dos portugueses, não foi fácil, como hoje não é fácil mantê-la segura e livre dos que ousam pôr em causa os que lutaram e deram a vida para erguer”, alertou, ao sublinhar “a gratidão estende-se a todos os eleitos”, partilhando o nome deles com a assistência: Adelino Manuel Lopes Amaro da Costa, Francisco Luís de Sá Malheiro, Manuel José Gonçalves Soares, Armando António Correia, Carlos Francisco Cerejeira Pereira Bacelar, Fernando Alberto Matos Ribeiro da Silva, Fernando José Sequeira Roriz, João Baptista Machado, Jorge Manuel Moura Loureiro de Miranda, Manuel José Veloso Coelho, Nívea Adelaide Pereira e Cruz, Adelino Augusto Miranda de Andrade, Agostinho de Jesus Domingues, António Alberto Correia Mota Prego de Faria, Francisco Xavier Sampaio Tinoco de Faria, Jerónimo da Silva Pereira, Joaquim Oliveira Rodrigues e José Manuel Rodrigues Alves.
Em representação dos eleitos, António Mota Prego fez uma alocução comovente, pela emoção com que descreveu alguns momentos da realidade vivida antes e depois da Revolução dos Cravos.
Recordou a tomada de posse ocorrida no dia 2 de Junho de 1975, lembrando o entusiasmo que unia os eleitos, “um grupo de amigos nas comissões mau grado fortes divergências que não interferiram na amizade ali construída e na forma civilizada como sabíamos discordar, ultrapassar ou não as discordâncias e fazer as disposições que alicerçaram o nosso sistema jurídico”.
Mota Prego confessou a emoção sentida aquando do relato da leitura da votação final da Constituição de 1975, saída após um longo trabalho de todos os deputados, numa intervenção em que aludiu à importância do Botequim de Natália Correia, ponto de encontro entre políticos e jornalistas e os tempos difíceis para os deputados que não tiveram imediatamente o vencimento assegurado.
Volvidos 50 anos, Mota Prego indicou que a Constituição permite mudanças, defendendo uma renovação, deixando um apelo aos partidos para que saiam das redomas em que se encontram.
O Presidente da Câmara Municipal de Guimarães destacou o que considera ser essencial. “Não há melhor sociedade do que aquela que vive em democracia, onde a liberdade é valor fundamental”, indicou Domingos Bragança, ao defender que o desafio que hoje se nos impõe é o de “garantir que os valores constitucionais permaneçam vivos, o que exige a atenção da sociedade actual”. Para o edil, o melhor tributo a quem lutou pela liberdade durante quase meio século é “cuidarmos da democracia e explicarmos, com clareza, os seus valores a todos, em especial aos jovens”.
“Aos que hoje parecem estar zangados com a democracia, devemos a nossa atenção. Temos de explicar novamente o que significa viver em liberdade, o que significa poder escolher, discordar, participar. A democracia é de todos. A construção da sociedade é responsabilidade de todos. A liberdade e a democracia não foram dádivas. Foram conquistas. E como tal, devem ser cultivadas todos os dias”, frisou.
Esta cerimónia inscreve-se num ciclo iniciado em 2022, que tem percorrido o território do distrito de Braga com o objectivo de reconhecer o legado de cidadãs e cidadãos que, em diferentes momentos e formas, contribuíram de forma decisiva para o triunfo da Revolução de Abril e para a edificação do Estado democrático em Portugal.
Numa declaração escrita lida durante a sessão, o Presidente da Assembleia da República expressou que “é uma ocasião que permite fazer justiça aos protagonistas da construção da democracia – os homens e mulheres que, com risco pessoal, resistiram e denunciaram o antigo regime; os que tornaram possível a Revolução; os que envolveram na formação e implantação local das diferentes forças partidárias; os que, a 25 de abril de 197, asseguraram as condições necessárias para a realização do acto eleitoral; os que se apresentam a votos. Mas é também uma importante oportunidade pedagógica para dar a conhecer às novas gerações os frutos do sistema democrático”. “A vossa disponibilidade, há 50 anos, para disputar eleições e defender ideias permitiu, numa hora decisiva da nossa vida comum, a consolidação da democracia portuguesa”, frisou José Pedro Aguiar-Branco, manifestando o agradecimento aos eleitos e aos cidadãos que “aderiram ao acto eleitoral, com níveis de participação dos 92 por cento. “Mostraram que o País queria abraçar a sua vocação democrática – e que não havia hipótese de retrocesso”.
O lema «Memória e Liberdade» norteia esta acção simbólica, que pretende destacar o papel dos constituintes enquanto Construtores da Liberdade, honrando os seus contributos na elaboração da Constituição da República Portuguesa de 1976, pedra angular da democracia portuguesa.
Pelo Círculo Eleitoral de Braga foram eleitos 15 deputados, sete do PPD, cinco do PS e três do CDS.
Em representação de Guimarães, estiveram Fernando Alberto Ribeiro da Silva, Fernando Roriz, os dois do PPD, e António Mota Prego, do PS.
Texto publicado na edição de 4 de junho de 2025 do jornal O Comércio de Guimarães.
Publicado em: 04/06/2025