O Almirante Henrique Gouveia e Melo desafiou os alunos de Engenharia Aeroespacial da Universidade do Minho a construir sistemas “mais inteligentes, mais resilientes, mais acessíveis e capazes de trabalhar em conjunto”.
Na aula inaugural do ano lectivo 2026-2027, proferida esta sexta-feira no grande auditório, Gouveia e Melo partilhou o seu conhecimento sobre a operação de drones em teatro de guerra, aludindo a casos verificados na acção da Ucrânia contra as tropas russas, evidenciando o “valor de sistemas simples”, alertando que não há tecnologias perfeitas.
Dirigindo-se aos estudantes, o coordenador da task force contra a covid-19 e candidato à Presidência da República apontou a existência de uma “oportunidade extraordinária para Portugal”. “Não temos de competir na construção das maiores plataformas do mundo, mas podemos competir em robótica, sensores, software, inteligência artificial, comunicações e integração de sistemas”, afirmou, acrescentando: “temos universidades, centros de investigação, empresas e experiência operacional. E temos pouca inércia, precisamente pela nossa dimensão. E o desafio é transformar conhecimento em produto, em indústria e em presença nos mercados internacionais. Não basta comprar tecnologia. É preciso saber concebê-la, desenvolvê-la, integrá-la e produzi-la. E essa missão pode ser da vossa geração”.
Durante a exposição que fez sobre “a tecnologia de drones e a guerra moderna”, Gouveia e Melo sublinhou que “uma decisão errada, tomada depressa, pode ser pior do que uma decisão certa tomada um pouco depois”, ao considerar que a Inteligência Artificial “deve acelerar a decisão, mas, sobretudo, deve melhorá-la. A verdadeira vantagem não é decidir primeiro, é compreender primeiro e decidir melhor”.
Lembrando que “os drones não são novas plataformas, são parte de uma reorganização profunda de combate”, o Almirante realçou que “a superioridade militar dependerá da capacidade de integrar sensores, informação, inteligência artificial e sistemas distribuídos”, ao assinalar que “a guerra é hoje uma competição entre ciclos de inovação e decisão. Não basta ter a melhor tecnologia”. “A escala e custo são tão importantes como o desempenho”, continuou, advertindo que “a sofisticação só é vantagem se puder ser sustentada”.
“A autonomia das máquinas não elimina a responsabilidade humana. Quanto mais capacidade damos às máquinas, mais exigentes temos de ser, com a segurança, a fiabilidade e os limites éticos. A decisão de empregar a força continuará a exigir responsabilidade humana e respeito pelo direito internacional humanitário. Deixo-vos o último desafio”, frisou.
“No século XX, o progresso aeroespacial media-se em voar mais alto, mais depressa e mais longe. O desafio do século XXI é construir máquinas que percebam o ambiente, que cooperem entre si e que operem na incerteza. Máquinas que continuam a funcionar quando tudo à sua volta deixou de funcionar como previsto”, disse, ao alertar para a importância de “transformar a informação em conhecimento e conhecimento em decisões melhores”. “Quando comecei a experimentação robótica na Marinha, muito disto parecia um futuro distante. Hoje é a realidade. E daqui a 10 anos, o que hoje nos parece avançado, parecerá tão rudimentar como os primeiros aviões nos parecem agora. Por isso, não construam apenas drones melhores. Construam sistemas mais inteligentes, mais resilientes, mais acessíveis e capazes de trabalhar em conjunto”, indicou.
“A próxima revolução não estará na máquina que voa, estará na inteligência que liga todas as máquinas. E por muito bem que possa ser construída, por alguém que possa estar eventualmente aqui nesta sala, há um desafio enorme para todos nós”, concluiu.
Publicado em: 23/10/2026