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Espólio da Unidade Vimaranense confiado ao Arquivo Municipal Alfredo Pimenta

Bolama
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O arquivo da extinta associação Unidade Vimaranense foi confiado ao Município de Guimarães, ficando disponível e acessível para ganhar uma nova vida no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta.

Por impulso da Real Irmandade de Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos todo o acervo arquivístico daquela importante Instituição encontra-se agora devidamente salvaguardado, tendo o auto correspondente à entrega física da documentação sido assinado no passado sábado.

Decatlon

Na cerimónia realizada na capela da igreja dos Santos Passos, o Provedor José Couceiro da Costa aproveitou o momento para homenagear o último presidente da Unidade Vimaranense António Xavier e mais três associados: Belmiro Jordão, Fernando Xavier e Francisco Oliveira.

Lembrando que não se pode ignorar o papel da Unidade Vimaranense no contexto da história de Guimarães na transição do Estado Novo para o pós 25 de abril de 1974, sob pena de se cometer “uma injustiça”, o responsável explicou que “por força do destino” o arquivo ficou depositado numa sala que a Unidade Vimaranense tinha arrendado à Real Irmandade. “O arquivo ficou ali e a Irmandade percebeu que tinha de encontrar um fim digno para o Arquivo. Nada mais digno para o fim de um arquivo do que o lugar onde terá um princípio, a verdadeira casa da memória de Guimarães que é o Arquivo Municipal Alfredo Pimenta”, disse José Couceiro da Costa, elogiando a sua directora Alexandra Marques e a sua equipa “por toda a atenção e carinho demonstrados no levantamento do respectivo acervo”.

“Todos os documentos foram limpos, catalogados e inventariados”, continuou, ao destacar a sua importância para a comunidade académica, ao comentar: “o 24 de abril é o pai da Unidade Vimaranense e no sentido figurado o 25 de abril é o seu próprio carrasco”. “Na primavera marcelista, um conjunto de magníficos vimaranenses tiveram o arrojo de dizer alto e bom som que não estavam contentes com o desinvestimento do poder central em Guimarães, nem com a ausência de vitalidade do próprio Município e vincar a sua insatisfação”, afirmou, ao consider que os quatro associados presentes na cerimónia revelaram ser à época “desestacionistas”. “Se tivemos piscina pública e campos de ténis tão precocemente em Guimarães, se tivemos aqueles terrenos que depois foram cedidos gratuitamente ao Vitória, isso deve-se à Unidade Vimaranense”, apontou, considerando que “quem não conhecer a dimensão extraordinária do que foi aquela Instituição não consegue perceber como se deu a passagem do Estado Novo para a democracia”.

O último presidente da Unidade Vimaranense António Xavier interveio, esclarecendo que a associação resulta de um movimento de indignação gerado no início dos anos setenta do século XX pelo facto de “Guimarães servir de plataforma económica para Braga”, sem ter o investimento público correspondente ao peso da carga fiscal e dinamismo económico que evidenciava.

Recordando que num dos muitos jantares que o Governador Civil António Santos da Cunha oferecia aos empresários de Guimarães para em contrapartida pedir apoio financeiro para poder melhorar o Natal no distrito à população mais carenciada, ousou dizer que os vimaranenses “pareciam que estavam a ser expropriados e enganados”. “Timidamente contestei o Sr. Governador relativamente à forma como eram distribuídos os valores gerados por Guimarães; por sua vez, o sr. Governador acusou Guimarães de ser uma terra dividida, considerando que aquela posição a que aderiram muitos outros vimaranenses “punha em causa a unidade do distrito”. “Contestei-o indicando que Guimarães estava sempre a ser rasteirada com medidas políticas que impediam essa união”, prosseguiu, ao lembrar que se comprometeu a mostrar ao Governador Civil como “Guimarães era um concelho unido”, surgindo a ideia de organizar uma concentração, o que não era permitido durante o Estado Novo. “Todos os empresários presentes prontificaram-se a parar as suas fábricas para o pessoal participar nessa concentração. Palavra passa palavra e a multidão encheu o Largo do Toural, estendo-se as pessoas até ao Largo João Franco e à Rua da Rainha. Guimarães juntou-se toda! Esta manifestação foi feita entre o salazarismo e a democracia, na presidência de Marcelo Caetano. Receava-se a intervenção das forças policiais! Mas, o Governador Civil que era muito inteligente apareceu de surpresa e marcou presença na manifestação, mostrando que estava com Guimarães, dando assim uma volta de 360º!”, testemunhou, ao precisar que após esse foi um “momento alto e brilhante do vimaranensismo, em que ricos e pobres deram as mãos”.

António Xavier assinalou que assim nasceu a “Unidade Vimaranense”, acrescentando que posteriormente “desfez-se em 24 horas”. “Acontece o 25 de abril de 1974 e a direcção da Unidade desaparece, com os dirigentes a aderirem a diferentes forças políticas. Essa Unidade ainda hoje não foi conquistada porque estamos com uma forma política de intervenção diferente em que as maiorias é que vencem”, sublinhou, ao dar conta que a Unidade foi esquecida, reconhecendo que também ele fez a sua escolha política.
“Os partidos políticos desenvolveram-se e esqueceu-se a Unidade”, lamentou, mostrando-se reconhecido pela documentação ficar à guarda do Arquivo Municipal.

Na sua intervenção, o Presidente da Câmara de Guimarães destacou o exemplo da Unidade Vimaranense, assumindo que o seu objectivo na reivindicação dos interesses da comunidade continua a ser uma lição muito actual. Domingos Bragança associou-se à homenagem prestada àqueles que “fundaram a Instituição e lutaram de forma invulgar por Guimarães”. “O Arquivo está a cumprir a sua missão e a Câmara só está a aceitar aquela que é a sua responsabilidade na defesa do património”, observou.

Para além do arquivo documental, a Real Irmandade recuperou uma placa de granito e a bandeira da Unidade Vimaranense, confiando esse espólio igualmente ao Município, desafiando o Arquivo a complementar esse mais-valia com o registo dos testemunhos orais.

O acervo da Unidade Vimaranense compreende documentação desde o ano de 1970 até ao ano de 2004, num total de 165 unidades arquivísticas, onde se incluiu Livros de Actas da Direção, da Assembleia Geral, do Conselho Geral, Autos de Posse, Relatórios e Contas, Orçamentos, Correspondência recebida, Correspondência enviada, Listagem de Associados, Festas Gualterianas entre outra variada e vasta documentação.

Publicado em: 23/09/2025

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