Costumo dizer, com um grão de ironia e dois de ternura, que em Guimarães somos todos historiadores.
Mas não desconheço que o ofício de investigador assenta na dúvida sistemática, no trabalho paciente nos arquivos, na utilização de ferramentas, metodologias e modelos de análise. É um trabalho rigoroso que, por regra, contrasta com as certezas de historiadores instantâneos, recentemente “turbinados” por IA, que transbordam de certezas firmes como granito. Sabem muito mais sobre a Idade Média do que os medievalistas, muito mais sobre Afonso Henriques do que os historiadores que decifram os documentos, muito mais sobre a fundação de Portugal do que quem dedicou a vida ao estudo do século XII. Nada desconhecem, exceto a dimensão da sua própria ignorância.
Faz por isso sentido demonstrar que a verdadeira grandeza de Guimarães não se construiu da submissão acrítica a certezas intemporais, mas do modo sábio como a cidade tem sabido resgatar o seu passado e construir e implantar a sua narrativa.
A ideia de que Guimarães sempre celebrou e solenizou o 24 de junho é tão sedutora como falsa. A batalha aconteceu em 1128; a primeira celebração, em Guimarães e em Portugal, ocorreu oitocentos anos depois. A sagração de S. Mamede como momento fundador de Portugal é obra de vimaranenses do século XX.
A análise sistemática da imprensa local permite demonstrar que, durante todo o século XIX e até ao último quartel do século XX, o dia 24 de junho estava tomado, esmagadora e ruidosamente, pelas festividades do São João. A data não era sinónimo de Fundação, mas de cascatas, fogueiras e orvalhadas na Fonte Santa. Prevalecia o silêncio mediático e institucional sobre S. Mamede, que não era mais do que uma nota de rodapé.
Só por ocasião do oitavo centenário é que a data foi assinalada, pela primeira vez, por iniciativa de um pequeno grupo de cidadãos ilustres e respeitados, sem apoio da Câmara Municipal e esbarrando na confrangedora recusa da Associação Comercial, transmitida pelo seu contínuo. 1928 foi semente lançada em campo de granito, sem força para se sobrepor à enraizada festança sanjoanina. As cerimónias modestas, preparadas na incerteza de a batalha ter acontecido a 23 ou a 24 de junho e adiadas para julho, foram vividas com a energia de um fogo-fátuo. 1928 não marcou o início de uma tradição, mas é justo guardar a memória dos que então tentaram resgatar S. Mamede ao esquecimento: o padre Gaspar Roriz, A. L. de Carvalho, José Luís de Pina, António Vieira de Andrade, David de Sousa Oliveira.
Seria necessário chegar a 1941 para que o dia de S. Mamede fosse introduzido no calendário anual das celebrações vimaranenses, por iniciativa de Alfredo Guimarães, conservador do Museu de Alberto Sampaio, que dirigiu à Câmara uma proposta para a “celebração anual em 24 de Junho, na Igreja de São Miguel do Castelo, de uma missa rezada em comemoração da Batalha de São Mamede, com a assistência do Município, das autoridades eclesiásticas e civis e do povo irmão dos heróis de 1128”. Aprovada na sessão da vereação de 4 de junho de 1941, a iniciativa de Alfredo Guimarães marca a institucionalização da memória oficial, ancorando definitivamente a comemoração junto ao Castelo. É aí que começa a tradição.
Passo seguinte: o feriado municipal. Começou por ser uma batalha longa e solitária de Hélder Rocha que, na sua coluna Esquina do Toural, do Notícias de Guimarães, pugnava pela instauração do feriado a 28 de junho, enquanto outros se batiam pela restauração do 8 de junho, que celebrava Gil Vicente. O feriado seria finalmente consumado em 18 de março de 1974, por decreto do Ministério do Interior, na sequência de diligências do último presidente da Câmara do Estado Novo, Manuel Bernardino de Araújo Abreu. Nos primeiros anos, o feriado passou quase em silêncio — o que, justificando-se com o contexto político e social, é revelador da solidez da tradição.
A afirmação do 24 de Junho ganhou balanço em 1976, com o impulso decisivo da Unidade Vimaranense. A partir daí, as comemorações foram crescendo em brilho e dimensão. A missa em S. Miguel do Castelo permaneceu, mas em sua volta foi sendo construído um programa progressivamente mais extenso.
Na década de 1980, a memória extravasou os muros da cidade. Foi definitivamente institucionalizada, no discurso oficial local e nacional, a fórmula do “Dia Um de Portugal”. O cerimonial evocativo ganhou complexidade e dimensão de Estado, alicerçada na presença regular dos Presidentes da República. A efeméride medieval converteu-se, enfim, numa liturgia democrática de alcance nacional.
O programa de 2009 é um bom espelho dessa transformação. Quando Viseu reclamava para si as atenções dos 900 anos do nascimento de Afonso Henriques, Guimarães trouxe o Chefe de Estado para a tribuna do 24 de Junho. Um programa de especial grandiosidade (900 anos em 900 horas) atesta, de forma cabal, o sucesso inquestionável de uma estratégia de afirmação da cidade perante a história e o país: torneio medieval na colina do castelo, exposições nos museus, um coro de 900 vozes no jardim do Centro Cultural, sessão solene com a Orquestra do Norte.
Guimarães, que nunca deixou de assumir a sua condição de Berço, não celebrou sempre S. Mamede. Escolheu fazê-lo — devagar, com hesitações, por obra de pessoas concretas.
Esse processo de construção não é uma fragilidade: é a prova de que a tradição funciona. Uma cidade que elevou a sua história fundacional a uma narrativa progressivamente solenizada e reconhecida a nível nacional, fez um notável trabalho de aprofundamento da sua identidade. Com inteligência, sabedoria e competência. Reconhecê-lo — saber que aconteceu assim, que teve autores, que teve datas precisas — exige aquilo que os guardiões mais fervorosos da “causa afonsina” dispensam: conhecer os factos antes de os proclamar. O reconhecimento de que a apropriação da Batalha de S. Mamede é uma realidade contemporânea — fruto do esforço, da inteligência e da persistência cívica dos vimaranenses do século XX — é a maior e mais honesta homenagem que se pode prestar a Guimarães e aos seus cidadãos. Para validar a sua relevância fundacional, a cidade não necessita encenar passados imaculados. Nem de encadernar a história com capas de veludo falso e ferragens de latão.
António Amaro das Neves
Publicado em: 30/06/2026