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De uma guerra a outra

Bolama
Decatlon

Sinto a situação de pandemia em que nos encontramos como se de um estado de guerra se tratasse, com um inimigo emboscado, pronto

a atingir-nos ao mais pequeno descuido.
Assim, no percurso que tem sido o da minha vida, esta é a segunda guerra em que tropeço, e que me fez olhar para trás, recolhendo as primeiras memórias da outra, que recuam aos meus 19 anos.

Decatlon

Com essa idade, frequentando o segundo ano de Direito, época de exames, recebi a missiva que me convocava para o primeiro momento do que foi a minha vida militar de três anos e vinte dias: anunciava ela o dia e a hora em que deveria apresentar-me para ser inspecionado com vista a ser se tinha condições para, como se dizia na gíria, ser tropa.
Até então eu da tropa só conhecia a passagem pela rua de Santo António e pelo mercado dos mancebos que, após o ato inspetivo, faziam cortejo tocando concertina, tangendo cavaquinho e cantando, tendo-me sido dito que assim faziam em sinal de regozijo pelo apuramento que lhes comprovava perfeito estado de saúde e boa capacidade física. A grande maioria dos futuros recrutas eram rapazes – então só os homens cumpriam o serviço militar – das zonas rurais, que para o ato inspetivo envergavam os trajes domingueiros, calça, camisa devidamente engravatada, casaco e chapéu que faziam deslizar para a metade posterior da cabeça, o que lhes conferia um ar de descontração festiva, muitos deles com ramo de alfádega atrás da orelha e cigarro ao canto da boca, especialmente os tocadores que, com as mãos ocupadas, tinham de ali o manter, inclinar a cabeça e fechar o olho do lado do cigarro como proteção contra o fumo.

Apesar de ter eclodido, não havia muito tempo, a guerra em Angola, eram então ainda modestos os ecos das desgraças por ela causadas e dos perigos que comportava, assim como não havia noção de por quanto tempo ela duraria e por isso, no dia em que fui à inspeção, no belo edifício em pedra que antecedeu aquele que agora alberga a Polícia Municipal, o único sentimento de constrangimento de que me apercebi e em que comunguei, foi o da nudez total, em fila indiana, de dezenas de rapazes, eu incluído; de resto não se sentia o temor que foi, crescentemente, o das posteriores levas de mancebos, a quem já afetava o pavor do apuramento e apenas aliviava a crença no milagre da reprovação no exame físico sem que isso significasse maleita grave ou grave estropio.

Foi aí que, espantado, reparei num rapaz, alguns lugares à minha frente, que tinha um bem visível arremedo de cauda, em virtude de anormal configuração das vértebras coccígeas. Jamais me passara pela cabeça que tal pudesse existir; era uma boa mão travessa de espessa cauda.
Mas, face à modéstia dos ecos a que acima aludi, ainda nesse ano houve arruada com concertinas, cavaquinhos, gravatas e raminhos de alfádega, na qual participei e atingiu ponto alto no mercado.

Porque era, como disse, época de exames e o costume na minha casa coimbrã era estudarmos de noite, regressei a Coimbra saindo de Guimarães em comboio até ao Porto e daí segui no comboio correio, que partia à meia noite e faz paragem em tudo quanto fosse estação ou apeadeiro, pelo que só pelas quatro horas chegava a Coimbra, pelo que teria quatro horas de estudo.

Para o efeito comprei bilhete de 1ª classe, ao tempo constituída por carruagens divididas em compartimentos de seis pessoas, três de cada lado frente a frente, como se vê nos filmes da época, havendo por baixo da janela uma mesinha dobrável e sobre ela uma luz incidente sobre a mesa.
Porque cheguei cedo procurei compartimento que me proporcionasse um lugar junto à janela, o que consegui num ainda vazio mas que, à hora da partida, já se encontrava cheio; cinco homens, contando comigo, e uma mulher, esta ao lado do homem que se sentou à minha frente.
Antes que o comboio arrancasse houve umas breves e tímidas trocas de “boa noite”, um ou outro “a senhora também vai para Aveiro”, ou frases idênticas, mas quando a composição arrancou a luz do teto foi substituída por pequenas luzes de presença que, deixando que os passageiros se vissem uns aos outros, não produziam, todavia, claridade suficiente para eu ler o livro de “Teoria Geral da Relação Jurídica”, referente à cadeira a que teria o primeiro exame do ano e a cujo estudo me queria votar. Simultaneamente todos os ocupantes se calaram, semicerraram os olhos e arvoraram ar de quem quer repousar, ou talvez refletir, durante a viagem.

Então eu disse que iria ter exame dali a dias e, se não incomodasse, acenderia a luz sobre a mesa para poder estudar e, com ar já ensonado, todos os companheiros de viagem, acenaram a cabeça, uns no sentido de que sim, poderia acender a lâmpada, outros no sentido de que não, não incomodava.
Eu disse todos, mas na verdade o que ia à minha frente imediatamente se inclinou para mim e começou:
“Então o senhor é estudante? Faz muito bem estudar. Olhe, eu tenho dois filhos: um não estudou porque não quis o outro não estudou porque não pôde. O mais velho até está em Angola, na tropa, e diz que aquilo lá é horrível. Até tenho aqui uma carta dele – e retirando a carta do bolso interior do casaco começa a lê-la, “”Querido pai e Querida mãe, espero que ao receberdes esta todos estejam bem que eu cá vou andando mas sempre cheio de medo e de saudades”” e por aí fora.

Nessa altura já todo o compartimento estava silenciosamente suspenso das palavras do homem, que debitava todas as desgraças que o filho lhe dava a conhecer, a fome, as patrulhas, os feridos, mortos na companhia dele não havia ainda nenhum mas pelo andar não tardaria a haver, as saudades dos familiares, da namorada de quem sentia muita falta (pudera!, pensei eu) dos cozinhados da mãe, dos cheiros da casa, dos campos e montes adjacentes, até que, a dado momento, ocorre uma explosão de choro convulsivo e um precipitado abrir da bolsa de mão que a mulher tinha pousada no regaço, da qual tirou um lenço que arrastou uma série de objetos que caíram no chão e com o qual se assoou e limpou um rio de lágrimas, e com o lenço ainda a tapar-lhe a cara, diz, oh senhor, não leia mais que eu já não aguento.

Todos os demais, incluindo o meu vizinho da frente, começaram a acalmar a senhora, afinal o rapaz estava vivo e se Deus quiser vivo de lá voltaria, enfim, foi um rodopio de frases de consolo, derivadas para os temas de vida de cada um, os filhos e filhas que tinham, quem lhes tinha morrido, o bom e o mau da atividade de cada um, a saúde, as heranças, as guerras familiares, os padres da freguesia, uns melhores e mais padres do que outros, enfim, um ror de vidas ali expostas com contido mas sincero à vontade, talvez porque ninguém conhecia ou sabia em eram os outros e tinha por certo que não iria saber nem conhecer.
Resultado: não estudei!

Guimarães, 23 de novembro de 2020
a.motaprego@gmail.com

Publicado em: 24/11/2020

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