A Casa Piedade encerrou a actividade no dia 31 de agosto, fechando as portas à clientela habituada a degustar refeições caseiras, num espaço onde as paredes estão decoradas com vestígios alusivos às memórias ali construídas.
Situada na Rua da Ramada, a “casa” alimentou e foi sustentada por gerações e gerações de trabalhadores das indústrias de curtumes e têxteis que durante o século XX dinamizaram aquele recanto histórico da Zona de Couros, desde 2023 classifuicada como Património Mundial pela UNESCO.
Foi com emoção que José Costa comunicou a decisão de encerrar o estabelecimento, ligado a três gerações da sua família. “Foi a 28 de Julho de 1907 que os meus avós abriram o negócio”, precisou, lembrando que terá sido na sequência da “prenda” dos padrinhos feita por ocasião do casamento. “Naquele tempo, havia famílias que viviam na miséria, mas os padrinhos de casamento dos meus avós eram gente abastada à época e ofereceram como prenda um carro de pão e uma pipa de vinho. Com esses alimentos, deram um bodo aos pobres daqui e sobrou muito. Os fundos da casa eram deles, ainda em terra batida, com a ribeira a passar por perto e que ainda era aberta porque depois o crescimento do casario cobriu-a”, recordou o empresário, de 74 anos, acrescentando: “que como o que sobejou do casamento, abriu-se um negócio em que servia vinho, pão e alguns petiscos aos operários”. Primeiro os avós, depois os país e, há 45 anos, José Costa e a esposa deram alma à casa que com o seu nome presta homenagem à fundadora: a avó Maria da Piedade Almeida.
Ponto de encontro de operários num tempo em que o barulho provocado pela mecanização da indústria não deixava adormecer a cidade, a Casa Piedade não distinguia a clientela pela condição social e ali também foram comensais distintos nomes da política, da cultura e da economia vimaranense e nacional. Muitos desses momentos áureos podem ser revisitados nas fotografias e adereços que servem de decoração nas duas salas do estabelecimento, existindo até uma placa do movimento “Amigos da Piedade” que organizava convívios, passeios e outras actividades lúdicas.
Perante a falta de sucessão familiar interessada em dar seguimento à actividade, José Costa viu-se na contingência de colocar um papel a dizer “encerramento temporário”, mas, vincou, “eu sei que vai ser eterno, a não ser que apareça alguém com vontade de continuar”.
“Era um mar de gente a vir para aqui trabalhar e que precisava de comer”
A actual configuração e vivência quotidiana da outrora industrial Rua da Ramada esconde um passado quase secreto e ignorado pelos mais jovens. A rua não tinha saída e constituía o acesso principal para três fábricas de curtumes e uma unidade industrial ligada aos têxteis, a conhecida Fábrica da Malha que funcionava noite e dia, ininterruptamente. “Era um mar de gente a vir para aqui trabalhar e que precisava de comer. No início, no intervalo e no fim dos turnos”, apontou, observando que a Casa Piedade confunde-se com a história contemporânea da Rua da Ramada. “Há 45 anos, quando iniciei a actividade havia sete grandes fábricas nas redondezas. Logo pela manhã, já se estava a servir café e bagaço porque o trabalho nos couros era muito duro e húmido. Os trabalhadores precisavam de um “mata-bicho” e de comer para terem força para trabalhar. Só o pessoal das fábricas desta rua mantinha o negócio de pé. Logo ao acordar fritavam-se ovos, umas febras, um bacalhau, já se vendiam ‘sinos’ e “quartilhos” de vinho”, realçou, ao enaltecer a dedicação e mão da esposa na cozinha, o que permitiu evoluir e conservar a actividade até à actualidade. “Trabalhou-se sete dias por semana, de manhã à noite e a restauração é um ofício exigente e desgastante”, comentou, sem esconder a “mágoa” da decisão de encerrar. “Vou sentir falta disto? Acho que vou, porque fica um vazio na rua e na Cidade, porque os estabelecimentos como este estão a desaparecer. Esta rua já não é o que era! Quando era miúdo, só três famílias tinham mais de 30 crianças a enchê-la de vida: na “Piedade” eram 8, nos “Rolas” eram 11, e numa outra família que vivia dentro da fábrica dos couros onde o pai era encarregado havia 12 filhos”, frisou, sem saber dizer se voltará a dedicar-se à pintura naif, talento que conciliava com o negócio, servindo a casa de galeria para muitas das suas criações.
Publicado em: 03/09/2026