A abertura da exposição “Café Oriental” registou uma enchente de visitantes atentos e interessados em conhecer e partilhar memórias sobre o espaço que durante mais de quatro décadas funcionou no Largo do Toural.
Na galeria da Sociedade Martins Sarmento, ontem ao início da noite, celebrou-se o centenário da inauguração desse estabelecimento marcado pela decoração dos tectos e das paredes, pelo design do mobiliário e arquitectura de interiores inspirados em motivos da antiga civilização egípcia. A exposição organizada pela Muralha – Associação de Guimarães para a Defesa do Património foi complementada com a edição do livro “Café Oriental (Egípcio) – Esbôço Explicativo”, da autoria do Capitão Luís de Pina.
Embora o Café surja da união dos quatro sócios-proprietários (os irmãos José da Costa Magalhães e Francisco da Costa Magalhães, Eugénio Leite Basto e José Fernandes da Costa Abreu), deve-se ao talento do Capitão Luís Augusto de Pina Guimarães (1867-1941) a intervenção decorativa, com a colaboração do pintor Joaquim Panchorca.
Presente na inauguração, o Presidente da Câmara de Guimarães manifestou o reconhecimento pelo trabalho das duas instituições culturais, destacando a importância da exposição. “Quando o Café Oriental abriu foi um assombro em Guimarães, causou um impacto que ficou na memória de muitos que tiveram a oportunidade de conhecer, visitar e frequentar o espaço e na memória dos outros que ouvem as recordações e os relatos do que era essa vivência”, afirmou Ricardo Araújo.
“Guimarães para projectar o seu futuro deve ter orgulho, valorizar, reconhecer e não esquecer aquilo que é o património material, mas o património imaterial que é constituído das sucessivas recordações e de marcos na nossa história mais antiga ou mais recente. Valorizar a memória do que foi o Café Oriental é também uma responsabilidade para quem tem hoje a obrigação de contribuir para a projecção de Guimarães no futuro e a evocação feita relativamente ao Capitão Luís de Pina é sempre uma inspiração para o que temos de fazer para projectar o futuro de Guimarães, sempre com o objectivo de melhorar a qualidade de vida daqueles que aqui vivem, trabalham, estudam ou daqueles que nos visitam. Também precisamos de espaços capazes de atrair aqueles que nos visitam a ficarem em Guimarães durante mais tempo, que não sejam apenas umas horas ou um dia”, acrescentou.
O Edil reagiu ainda à observação feita pelo Presidente da Muralha Rui Victor Costa que, pouco antes, tinha indicado que a exposição foi planeada para o CIAJG, defendendo “permeabilidade para as estruturas culturais chamarem mais gente”.
Ricardo Araújo sublinhou a necessidade de “contribuir para que os espaços culturais e as instituições, sobretudo aquelas que estão na responsabilidade directa do Município, se possam cada vez mais aproximar do seu público-alvo e dos vimaranenses”. “Os sucessos que tivemos na cultura ao longo dos anos resultou do envolvimento directo dos vimaranenses, dos mais novos e dos mais velhos, quando falamos da Plataforma das Artes ou o Centro Internacional das Artes José Guimarães e que tantos desafios têm pela frente porque precisam de ter uma dinâmica substancialmente superior passam por envolvermos a nossa comunidade, as nossas associações e a nossa memória. Estes equipamentos municipais têm de estar abertos e disponíveis para a participação das nossas associações, sobretudo em projectos relacionadas com a manutenção, preservação e elogio da nossa memória colectiva daquilo que contribuiu para a nossa identidade”, apontou o Presidente do Município.
O dirigente da Muralha explicou que o conjunto de imagens em exposição pertence ao núcleo de fotografia da Associação e ao Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, contando ainda com uma recriação através da inteligência artificial “daquela que seria a cor do Café Oriental”.
Recordando que, em 1925, Guimarães não tinha um café moderno, Rui Victor Costa destacou o rasgo de imaginação do Capitão Luís de Pina, militar, democrata, um artista formidável, capaz de trazer o Egipto para Guimarães. O café abriu a 19.12.1925 e encerrou em 1967 para dar lugar a uma dependência bancária. “O desaparecimento foi um disparate e com esta exposição contida fazemos um justo tributo ao que representou o Café Oriental para Guimarães, porque a memória nunca foi destruída”, sublinhou. A exposição poderá ser visitada até ao dia 2 de Fevereiro.
Na apresentação do livro, José das Candeias Sales e Susana Mota agradeceram ao Presidente da Sociedade Martins Sarmento, Antero Ferreira, destacando o contributo da Instituição com a publicação do documento “Esboço Explicativo” para a compreensão da decoração oriental egipcianizante do espaço “coqueluche da cidade de Guimarães em meados dos anos vinte do século passado”, com as fascinantes pinturas, esculturas, mesas, cadeiras e colunas e um serviço aprimorado. “É um inestimável contributo para evocar o imaginário do centro histórico da Cidade e deste seu raro estabelecimento comercial de marcado cunho oriental, interpelando na actualidade sobre a forma como se deve lidar criteriosamente com a preservação do passado”, vincam os autores, defendendo a possibilidade de recriar e manter vivo um dos mais belos, ricos e extraordinários exemplos de egiptomania em Portugal.
Publicado em: 20/12/2025