Antes das redes sociais, antes das plataformas de avaliações e muito antes de existirem influenciadores, já a Cervejaria Martins era a casa da moda em Guimarães. Era ali que todos queriam estar, no coração do Toural, a verdadeira sala de visitas da Cidade. Curiosamente, houve também um tempo em que aquele balcão era quase um território exclusivamente masculino e poucas mulheres ousavam ocupar uma mesa. Setenta e cinco anos depois, muita coisa mudou. Mudaram os clientes, mudaram os hábitos, mudou a própria Cidade. Mas a missão da Cervejaria Martins permanece exactamente a mesma: juntar pessoas.
É precisamente essa história que a família Martins celebra este ano. As bodas de diamante assinalam 75 anos de uma casa que atravessou gerações sem nunca perder a identidade que a transformou numa referência incontornável da restauração vimaranense. Hoje, é Maria Helena Martins quem representa a quarta geração da família à frente do negócio, sucedendo ao pai, Júlio Martins, que dedicou praticamente toda a vida à cervejaria. “É um sentimento muito forte. Trabalhei aqui 49 anos”, resumiu, sem conseguir esconder a emoção.
A história da família confunde-se com a da própria casa. Tudo começou com José Fernandes Martins. Mais tarde, Júlio Fernandes Martins deu continuidade ao negócio e, anos depois, foi a vez de Júlio Marques Fernandes Martins assumir o testemunho, juntamente com o irmão Damião. Agora, é Maria Helena quem garante a continuidade de uma tradição familiar que atravessa quatro gerações. Uma passagem feita de forma natural e quase inesperada.
“Comecei quase por brincadeira”, recordou. Licenciada em Ensino, encontrava-se a frequentar o mestrado quando decidiu ocupar as manhãs ajudando o pai. “Ele avisou-me logo que isto não era fácil”, mas foi ficando. E nunca mais saiu. Hoje assume a gestão da cervejaria com a mesma dedicação com que o pai o fez durante quase meio século.
Ao longo de 75 anos, a Cidade transformou-se profundamente. O Toural deixou de ser o mesmo, a Capital Europeia da Cultura trouxe novos visitantes e Guimarães abriu-se cada vez mais ao turismo. Também a Cervejaria Martins soube acompanhar essa evolução sem perder a identidade.
“Há dias em que olho para a sala e não conheço praticamente ninguém. São clientes de Lisboa, do Algarve e até de outros países que nos ligam para saber se ainda conseguem mesa”, explicou Maria Helena. Uma realidade muito diferente daquela que o pai conheceu durante décadas, quando quase todos os rostos eram familiares.
Apesar das mudanças, há sabores que continuam a atravessar gerações. O prego em pão, a francesinha especial, os petiscos e os pratos tradicionais mantêm-se entre as preferências de quem entra pela porta. Mas a grande especialidade da casa talvez nunca tenha figurado na ementa. É o balcão.
“Acho que é isso que as pessoas procuram quando vêm à Cervejaria Martins”, disse Maria Helena. E basta permanecer alguns minutos junto dele para perceber porquê. Há quem entre apenas para um café, quem faça questão de beber um fino ao final do dia e quem aproveite aqueles minutos para conversar. “Às vezes somos um bocadinho psicólogos. As pessoas desabafam connosco e esses dez minutos podem fazer toda a diferença.”
Ao longo de sete décadas e meia, aquele balcão ouviu de tudo. Discussões acesas sobre futebol, debates políticos, celebrações, tristezas e amizades que resistiram ao tempo. Júlio Martins recorda bem os sábados em que adeptos do Vitória, Benfica e Porto transformavam a cervejaria num autêntico palco de rivalidades. “Às vezes pegavam-se a sério. Eu chateava-me muito com eles, mas acabavam sempre por respeitar e, na semana seguinte, já lá estavam outra vez.” Hoje recorda esses episódios com saudade.
Por ocasião do 50.º aniversário, a família Martins decidiu eternizar parte dessa memória num livro de testemunhos. Entre as suas páginas, empresários, médicos, advogados, políticos, artistas e tantos outros vimaranenses recordam episódios vividos ali. Para quem ali cresceu, entre conversas, amizades e encontros marcados ou ocasionais, a Cervejaria Martins nunca foi apenas um espaço gastronómico. Foi, e continua a ser, uma segunda casa.
Quando se fala em momentos marcantes, Júlio Martins tem dificuldade em escolher. Para Maria Helena, porém, o momento mais marcante destes anos de gestão aconteceu de forma muito mais silenciosa. “Foi olhar para a cervejaria cheia e ver muito mais mulheres do que homens. Sentir que vencemos aquele preconceito de que isto era uma casa só para homens.” Hoje entram sozinhas, com amigas ou em família, ocupando naturalmente um espaço que, durante muitos anos, parecia não lhes pertencer. Uma mudança que considera uma das maiores conquistas da casa.
Gerir uma cervejaria com tanta história implica também saber adaptar-se aos novos tempos. Criaram-se regras, organizaram-se filas, modernizou-se o serviço e reforçou-se a equipa, hoje composta por colaboradores mais jovens e de várias nacionalidades. Tudo para responder a uma realidade muito diferente daquela que existia há algumas décadas. “O nosso desafio passou a ser tratar da mesma forma o cliente habitual e aquele que nos visita pela primeira vez. A casa é de todos”, sublinhou Maria Helena.
Daqui a 25 anos, a Cervejaria Martins celebrará um século de existência. Júlio imagina a filha a dar continuidade ao projecto e o neto Artur, hoje com apenas sete meses, a crescer entre as mesas da cervejaria, tal como aconteceu com as gerações anteriores.
Maria Helena sorri quando fala desse futuro. Sonha continuar a ver filhos, netos e bisnetos dos actuais clientes a entrarem pela porta. Porque acredita que será essa a maior prova de que a missão continua a ser cumprida.
No final da conversa, percebe-se que a Cervejaria Martins nunca viveu apenas da gastronomia. Viveu das pessoas. Das conversas, das amizades, das memórias e da capacidade rara de fazer com que quem ali entra se sinta em casa.
Talvez seja por isso que, 75 anos depois, continua a ser muito mais do que uma cervejaria. Continua a ser um dos lugares onde Guimarães gosta de se encontrar.
E na celebração dos 75 anos, a homenagem não podia ter outro destinatário. As portas da casa abriram-se para aqueles que, ao longo de três quartos de século, lhe deram vida: os clientes. Afinal, são eles os verdadeiros protagonistas desta história.
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Publicado em: 27/07/2026