O regresso da Noite Branca a Guimarães merece ser saudado. Não porque represente uma novidade, mas porque corrige uma ausência que nunca deveria ter existido.
Há um princípio que considero essencial na gestão pública: um bom governante não se distingue apenas pelo que cria. Distingue-se, sobretudo, pela inteligência de preservar o que resulta e pela coragem de recuperar aquilo que nunca deveria ter sido perdido.
Vivemos, demasiadas vezes, condicionados pela ideia de que cada ciclo político tem de deixar a sua marca através de novos projetos. Essa ambição é legítima. Mas torna-se um erro quando conduz ao abandono de iniciativas que já provaram o seu valor. Foi isso que aconteceu com a Noite Branca.
Nascida na sequência de Guimarães Capital Europeia da Cultura, a Noite Branca afirmou-se rapidamente como um dos momentos mais marcantes da programação anual do concelho. Durante anos, encheu o centro histórico de vida, dinamizou o comércio tradicional, a restauração e a hotelaria, promoveu artistas, associações e agentes culturais e projetou Guimarães muito para além das suas fronteiras.
Mas a importância da Noite Branca nunca se mediu apenas pelo número de espetáculos ou pela quantidade de visitantes. O seu verdadeiro valor residia na capacidade de transformar a cidade durante uma noite inteira. As ruas enchiam-se de famílias, jovens e visitantes. O comércio prolongava horários, a restauração registava uma atividade excecional, a hotelaria beneficiava da procura e dezenas de associações, coletividades e agentes culturais encontravam um palco privilegiado para mostrar o seu trabalho. Era um evento que gerava riqueza, reforçava a identidade coletiva e demonstrava que a cultura é também desenvolvimento económico, coesão social e afirmação territorial.
Em 2020, a pandemia obrigou à interrupção do evento. Foi uma decisão inevitável e compreendida por todos. O que deixou de ser compreensível foi a sua ausência nos anos seguintes. É certo que, entretanto, por razões relacionadas com a utilização da designação original, a iniciativa passou a apresentar-se sob outro nome. Mas, independentemente da designação, o essencial é que Guimarães recuperou um evento que nunca deveria ter deixado de fazer parte da sua vida cultural.
Importa, contudo, fazer justiça aos factos. Ao longo dos seus mandatos, o então Presidente da Câmara, Domingos Bragança, sempre respeitou a autonomia do pelouro da Cultura, concedendo total liberdade aos vereadores responsáveis. Nunca procurou orientar a programação cultural por critérios políticos nem interferir nas opções de natureza artística. Essa independência sempre marcou a sua forma de exercer funções e merece ser recordada e reconhecida.
Foi precisamente nesse contexto de autonomia que a Noite Branca permaneceu ausente quando já nada o justificava. Respeito quem tomou essa opção, mas continuo a considerá-la um erro. Guimarães perdeu, durante vários anos, um evento consolidado, reconhecido pelos vimaranenses e com um impacto cultural, social e económico amplamente demonstrado.
Por isso, mais do que celebrar um novo evento, importa reconhecer a decisão de corrigir essa opção e devolver à cidade aquilo que nunca deveria ter deixado de fazer parte da sua programação cultural.
Tal como escrevi recentemente a propósito do Festival MIMO, também aqui importa distinguir entre criar e recuperar. A Noite Branca não é uma invenção deste mandato. É a recuperação de um património imaterial da cidade, de uma iniciativa que os vimaranenses fizeram sua e que nunca deveria ter deixado de integrar o calendário cultural de Guimarães.
Uma política cultural madura não vive da necessidade permanente de apresentar novidades. Vive da capacidade de consolidar projetos vencedores, criar referências duradouras e preservar aquilo que gera identidade. As cidades que hoje admiramos afirmam-se porque souberam equilibrar inovação e continuidade. Nem tudo precisa de ser reinventado para continuar a criar valor.
Essa sempre foi também a minha forma de olhar para a gestão pública. Enquanto Presidente de Junta, procurei recuperar iniciativas que, por diferentes razões, se tinham perdido ao longo dos anos, como a confraternização de Ponte a São Torcato em bicicleta ou a festa de São João. Não por saudosismo, mas porque acredito que as comunidades se fortalecem quando sabem inovar sem abandonar aquilo que as une.
Há também uma dimensão que raramente se mede em números: a memória coletiva. As cidades constroem-se através dos momentos que os seus habitantes esperam, vivem e recordam. A Noite Branca era um desses momentos. Fazia parte do calendário afetivo de muitos milhares de vimaranenses. Era um encontro anual entre a cidade e as pessoas, entre o património e a cultura, entre quem cá vive e quem escolhia Guimarães para passar essa noite. Quando desapareceu, não se perdeu apenas um evento. Perdeu-se uma tradição que já fazia parte da identidade contemporânea de Guimarães.
Nem tudo o que vem do passado deve permanecer. Mas aquilo que resiste ao tempo, mobiliza milhares de pessoas, cria valor económico, fortalece o tecido associativo e continua a gerar orgulho coletivo não deve desaparecer apenas porque mudou o calendário político.
A Noite Branca nunca pertenceu a um presidente, a um vereador ou a um executivo. Pertenceu sempre a Guimarães e aos vimaranenses. E as melhores decisões nem sempre são aquelas que criam algo novo. Muitas vezes, são aquelas que têm a humildade de reconhecer o valor do que existia e a coragem de devolver às pessoas aquilo que nunca lhes deveria ter sido retirado.
Sérgio Castro Rocha
Publicado em: 20/07/2026