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A morte da melancolia

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A depressão ocupou o espaço da melancolia. Matou-a como predadora implacável que é e recorreu aos fármacos para esquecer tão vil assassinato.

 

Decatlon

Eu sou de uma geração ainda dada à melancolia, ao vazio sereno que ela convoca. Os escritores do século XIX, em especial os franceses, construíam os seus romances à volta de personagens melancólicas. Os poetas portugueses do início do século XX, o Pessoa, o Sá-Carneiro, transbordavam de melancolia e a sua poesia tinha essa indefinição de alma.

Creio que quando as sociedades se foram tornando progressivamente febris, do tudo ou do nada, do sim ou do não, sem qualquer espaço para a nuance, sem espaço para o talvez, para o não sei, a raça humana perdeu a paradoxal força poética da melancolia. A febre da realidade, ou pelo menos de como a realidade é percecionada, leva a estados antagónicos em que a febre domina: a excitação febril da certeza ou a funda depressão do ser-se incompreendido, do ser-se só.

Outrora, por paradoxal que possa parecer, era a febre que, enquanto crianças, nos dava o primeiro assomo da melancolia. Uma melancolia de corpo, ainda não de alma. A melancolia surgia apenas da impossibilidade de brincar, de estar e ser normal.

Enquanto os companheiros, indiferentes à nossa sorte, jogavam à bola e aos cowboys, pum pum estás morto, em brincadeiras em que tínhamos mesmo revólveres que rodavam o tambor de cada vez que o gatilho era premido, eu estava prostrado na cama com 40 de febre. O presente escapava-se-me num quarto a tresandar ao intenso cheiro a menta e a eucalipto do Vick Vaporoub: uma espécie de remédio para todos os males.

Mas a melancolia de alma vem mais tarde, enquanto adolescente. No que se lê, no que se ouve, no que se sente, ou se julga sentir. Na música havia temas que me deixavam prostrado e melancólico, assumindo uma tristeza mecânica e inevitável, apesar de postiça. O tema Decades, dos Joy Division, foi a mais perfeita dessas músicas tristes, desoladoras, sem esperança. A última música do lado B que recolocava no seu início de cada vez que ela terminava e se ouvia o crepitar vazio do vinil. Vezes e vezes sem conta. Mas o amor era a principal razão da melancolia. Não o amor pela rapariga que se conhece, mas por aquela que não se conhece, nem se vê maneira de a conhecer. Aquela com a qual trocamos um olhar intenso, apesar de breve, muito breve. E no outro dia se revisita a hora e o local onde o olhar foi cruzado, em vão.

A melancolia é a saudade do presente que não se tem. É triste, mas é criativa e punha-me a escrever poemas para alguém de quem não sabia o nome. Depois crescemos e sabemos o nome, depois falamos com ela e ela não é nada daquilo que imaginávamos que ela fosse. Ganha-se um beijo, talvez dois, e ela não é, afinal, a tal. E tem-se saudades – não do passado ou do futuro – (mas) da própria melancolia. Da criatividade que convoca para dela nos livrarmos.
Melancolia é uma inquietação serena. A mais nobre das inquietações, pois não tem uma origem concreta e definível. Um estado de espírito criado pela complexidade da alma humana, que vai desaparecendo sem que se criem associações de defesa da melancolia, nem grupos de ajuda de melancólicos anónimos. Bem vistas as coisas uma Associação de Melancólicos Anónimos seria a mais silente de todas as associações. Ninguém falaria nada pois a melancolia é intransmissível. A tristeza explica-se e tem motivo, é partilhável, a melancolia não. É um efeito sem causa. É-se melancólico não por aquilo que se perdeu, mas por aquilo que se vai perder sem nunca ter sido conquistado.

No mundo febril que hoje vivemos, com tanta gente carregada de certezas, fazia falta alguma melancolia. Penso que o mundo seria melhor. Senhor primeiro-ministro que tem o senhor a dizer sobre a sua casa na Comporta construída pelo seu vizinho da frente que agora é diretor da Direção Geral dos Vizinhos da Frente? Caros jornalistas, lamento, mas não tenho nada a dizer, estou profundamente desolado comigo mesmo, tenho de ir para casa e pôr-me a olhar para o teto, horas a fio, desculpem, deixem-me passar. Senhor goleador, porque falhou o senhor aquele penalti? Bom, não sei que vos diga, olhei para o guarda-redes e senti tamanha melancolia que acertar na bola já foi um feito pessoal, agora é levantar a cabeça.

Só a incerteza pode trazer de volta a melancolia. Pode ser que o pessoal se canse de saber de tudo, de opinar sobre tudo. E dá-me uma certa melancolia esta ausência, continuada, de melancolia. Não a substituo por nostalgia, como é próprio nos velhos, não é a mesma coisa, não tem o mesmo encanto. Resisto, portanto

Publicado em: 01/09/2026

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