De Timor-Leste para Guimarães: a história de fé e esperança
A guerra, o exílio e a separação da família marcaram a infância do padre Domingos Araújo. Hoje, quase uma década depois de ter chegado a Guimarães, diz sentir-se “verdadeiramente em casa” e faz da simplicidade e da proximidade com as pessoas a sua principal missão pastoral nas paróquias do Vale de São Torcato.
Natural de Maucola, no distrito de Covalima, em Timor-Leste, Domingos Araújo nasceu em 1985, quando o país ainda estava sob administração indonésia. A infância foi vivida em contexto de conflito e, em 1999, após o referendo para a independência, a violência obrigou a família a refugiar-se na Indonésia. “Foram anos muito difíceis, marcados pela guerra, pela incerteza e pelo sofrimento”, recorda. Ainda assim, afirma olhar para esse passado “com gratidão”, por acreditar que essas experiências fortaleceram a sua fé.
A vocação sacerdotal surgiu de forma inesperada, quando vivia num campo de refugiados. O sonho era seguir uma profissão ligada à mecânica, mas a curiosidade despertada por colegas que ingressariam no seminário levou-o a candidatar-se. Entre seis candidatos da sua escola, foi um dos quatro admitidos. Seguiram-se 14 anos de formação até à ordenação sacerdotal, em 2015, na Congregação do Verbo Divino.
Portugal era um dos países que desejava para a missão. Chegou em Outubro de 2016 para aprender português e, um ano depois, foi enviado para Guimarães, onde permanece desde então. “Nunca me senti um estrangeiro”, afirma, destacando o acolhimento da comunidade vimaranense. Recorda frequentemente um conselho dos pais: “Para onde fores, leva sempre o teu coração. Se fores de coração aberto, serás recebido de coração aberto”.
Ao longo destes anos, encontrou no Minho um povo “trabalhador, generoso e profundamente ligado às suas raízes”. Admira as tradições, a riqueza das festas populares e o espírito comunitário que mobiliza centenas de voluntários, defendendo, no entanto, que essas celebrações devem caminhar lado a lado com a missão evangelizadora e a solidariedade.
Da cultura timorense trouxe valores que procura viver diariamente: simplicidade, alegria, hospitalidade e espírito de serviço. É frequente visitar lares de idosos, levando a guitarra para cantar com os residentes e criar momentos de convívio. “São gestos simples, mas que criam proximidade, esperança e alegria”, explica.
Sobre os jovens, acredita que a fé continua presente, embora seja hoje vivida de forma diferente. Considera essencial que a Igreja saiba escutá-los, confiar na sua criatividade e oferecer-lhes espaços de participação. “A Igreja precisa da criatividade, da alegria e do entusiasmo dos jovens”, defende.
Apesar das diferenças entre Timor-Leste e Portugal, Domingos Araújo acredita que a missão do sacerdote é universal: “estar próximo das pessoas, caminhar com elas e testemunhar esperança”, aponta. Uma esperança que, no seu caso, nasceu precisamente das maiores dificuldades e que hoje procura partilhar com a comunidade que o acolheu como um dos seus.
Publicado em: 14/07/2026