Em 2022, João Baião contou, na televisão nacional, que lhe tinha sido negado o aluguer do auditório do Centro Cultural Vila Flor para um espetáculo seu. Este verão,
esse espetáculo aconteceu – e o tema voltou à baila. Pela razão inversa. Foi montado um engodo sobre a suposta “popularização” da política cultural vimaranense. Um engodo que evita a pergunta que realmente interessa: para que, e para quem, existe a política cultural?
Se há coisa que aprendi nestes meses na Câmara Municipal foi que não basta um serviço estar disponível para que chegue a quem dele precisa. Algo muito visível na cultura.
Como em tudo, a proximidade às pessoas e à comunidade é fundamental. O caminho de envolvimento da comunidade, das escolas e do consenso político obtido foi um fator decisivo no sucesso da candidatura de Guimarães a Capital Verde Europeia 2026. O elemento que mais terá permanecido na memória dos Vimaranenses da Capital Europeia da Cultura 2012 foi o slogan “Tu Fazes Parte”, porque correspondia à verdade que se vivia na rua: o envolvimento de um público amplo, celebração da comunidade e programação em espaço público que chegou a todas as pessoas.
Infelizmente, desde 2013, Guimarães perdeu grande parte deste fulgor na cultura.
A programação continuou a existir, com padrões de reconhecida qualidade. Mas fechou-se nos centros culturais ou em ofertas de nicho, que falam sobretudo a públicos específicos e a quem já domina essas linguagens. Os números estão no relatório e contas d’A Oficina: em 2025, os espetáculos de teatro, música e dança realizados levaram 28979 espetadores – praticamente os mesmos 28050 de 2013.
Pouco ou nada mudou.
A política cultural não se mede só pelos números dos públicos, mas também não os pode ignorar quando, num período de 15 anos, os números de públicos são os mesmos. Isto significa que a política cultural falhou: não formou novos públicos; não chegou a mais gente; não transformou mais vidas.
A cultura pode ser mais – aliás, tem de ser muito mais que isto. A Oficina sabe disto e é parte da solução. As palavras do seu presidente, Esser Jorge são claras: “Não temos vergonha da cultura popular. Não temos de ter”. A lógica é de abertura, de garantir acesso a todos. Porque uma política cultural que não se aproxima das pessoas, afasta e fica mais pobre. Quem nunca entrou no CCVF, deixa de querer entrar – e depois usa-se o facto de não quererem entrar como prova de que não vale a pena convidá-los.
E o que está em causa não é pouco. O usufruto da cultura tem um impacto concreto na vida de cada um: dá capacidades que não se aprendem na escola, alarga horizontes, alimenta a capacidade de sonhar. Cria pertença – aos valores, práticas e costumes que partilhamos. Torna-se evidente que a política cultural do Município tem de estar ao serviço das pessoas e ser delineada para tocar as suas vidas.
O atual Executivo tem tido essa preocupação desde a primeira hora. Repare-se na programação em espaço público. Exposições que estavam pensadas para espaços fechados foram levadas para o Toural,
ao encontro de todos. Multiplicaram-se os espetáculos abertos e gratuitos, do concerto de Carnaval ao festival Mimo. A Noite Branca regressou, não como apenas uma noite de música, mas com o comércio
tradicional e os espaços culturais de portas abertas fora de horas, permitindo novos contactos e mais visitantes.
Ao mesmo tempo, reforçou-se o investimento na criação e produção cultural e artística local. O programa IMPACTA viu a sua verba reforçada em 2026 e tem o regulamento em revisão, em diálogo com os agentes locais, para servir melhor a criação e produção artística independente. O Contextile terá em 2026 a sua maior edição de sempre, em extensão e impacto. Os grupos amadores locais subiram ao palco nos eventos públicos – na abertura da Capital Verde Europeia e na sessão solene do 24 de junho.
Uma aposta mais ampla, que se reforça e que se vê no orçamento. Ao momento atual, a Câmara Municipal prevê um aumento de 13% do investimento em Cultura face ao realizado no ano de 2025.
Isto, para além do que não se vê: o trabalho diário de diálogo e cooperação com todas as instituições.
Um trabalho “por trás das cortinas do palco”, que esta semana viu luz pública, na apresentação do Fest’In Folk Corredoura, com o seu responsável, Henrique Macedo, a agradecer “de modo especial” ao
Município pelo reforço do apoio financeiro e por ter assumido este ano, pela primeira vez, um apoio logístico fundamental para este festival.
Práticas de gestão municipal que se enquadram num princípio de abertura, inclusão e participação.
Aproximar a cultura de todas as pessoas. Com todos, e não apenas com quem já está familiarizado.
Cruzando linguagens, tocando públicos, desafiando. Mas o começo é sempre o mesmo: é preciso chegar às pessoas, quebrar barreiras. Falar a sua linguagem.
Daí a importância simbólica do episódio com que comecei. Um privado quis fazer um evento de entretenimento, numa linguagem popular, e fê-lo. E assim se abram as portas a outros públicos, que entram, desfazem mitos, e ficam desafiados a voltar.
Porque a construção de Guimarães que precisamos faz-se com todos. A transformação que a cultura potencia só acontece se as culturas e artes chegarem às pessoas. A todos. Com todos.
Publicado em: 28/07/2026