Guimarães habituou-se a dar ao país muito mais do que recebe. Deu-lhe o primeiro passo para a independência, uma parte essencial da sua identidade e continua, demasiadas vezes, a ter de lutar para que essa importância seja reconhecida. Por isso, nas comemorações dos 900 anos da Fundação de Portugal, há uma linha que não pode ser ultrapassada: a dimensão nacional do programa não pode servir para retirar a Guimarães o lugar central que lhe pertence.
É positivo que Portugal inteiro participe. É desejável envolver escolas, universidades, museus, municípios, comunidades portuguesas e outros lugares fundamentais da formação da nacionalidade. Mas alargar não pode significar diluir. Nacionalizar não pode significar centralizar.
Guimarães não pretende fechar as comemorações dentro das suas muralhas. Pretende apenas que Portugal não se esqueça do lugar onde tudo começou. A fundação da nacionalidade foi um processo político, militar e diplomático desenvolvido ao longo de várias décadas. A Batalha de Ourique, o Tratado de Zamora e o reconhecimento papal tiveram uma importância indiscutível. Mas houve um momento em que o caminho mudou.
No dia 24 de junho de 1128, em São Mamede, D. Afonso Henriques afirmou o poder político que viria a conduzir à independência de Portugal. Adicionar novos capítulos à nossa História não pode significar arrancar a primeira página.
Guimarães não deve pedir exclusividade. Deve exigir centralidade. E essa centralidade não se mede pelo número de cerimónias realizadas na cidade, pela presença de ministros ou pelas referências feitas nos discursos oficiais. Mede-se pela participação nas decisões.
Em fevereiro de 2026, o Governo criou um Comissariado dedicado aos 900 anos da Batalha de São Mamede, sediado no Paço dos Duques de Bragança e com participação direta do Município de Guimarães e da Universidade do Minho.
Em julho, a estrutura foi substituída por outra, mais ampla, dedicada aos 900 anos da Fundação de Portugal. A execução passou para uma Comissão Executiva nomeada pelo Governo, enquanto o Município e a Universidade do Minho ficaram remetidos para um Conselho Geral que reunirá, pelo menos, duas vezes por ano. Não é um simples detalhe administrativo. É uma alteração na arquitetura do poder.
Quem integra a Comissão Executiva prepara, decide e executa. Quem integra o Conselho Geral acompanha, aprecia e recomenda. As duas funções são importantes. Mas não são iguais.
Em fevereiro, Guimarães tinha lugar na sala de comando. Em julho, reservaram-lhe uma cadeira na sala de reuniões.
Por isso, a pergunta essencial não é quantas cerimónias serão realizadas em Guimarães. É quantas decisões serão tomadas a partir de Guimarães. Não basta estar na fotografia. É preciso estar no texto da decisão. Também por uma questão de justiça, importa recordar que este caminho não começou agora.
Foi pensado, estruturado e iniciado durante a presidência de Domingos Bragança. Foi nesse período que Guimarães promoveu investigação, desenvolveu projetos educativos e culturais, realizou Jornadas Afonsinas, incentivou publicações e envolveu escolas, universidades, investigadores, associações e agentes culturais.
Em dezembro de 2024 foi apresentado um ciclo comemorativo entre 2025 e 2032, centrado em 2028 e concebido para projetar Guimarães no país e no mundo.
Nada disto foi obra de uma só pessoa. Resultou de uma visão política, do trabalho dos serviços municipais, da Universidade do Minho, dos investigadores, dos professores, das escolas, das associações e de muitos cidadãos.
Mas reconhecer o caráter coletivo desse trabalho não obriga a esconder quem teve a responsabilidade política de o impulsionar. Reconhecer quem iniciou o caminho não significa viver do passado. Significa impedir que o presente apague a memória para poder reclamar a autoria.
A atual liderança municipal não recebeu uma folha em branco. Recebeu um projeto amadurecido, uma causa afirmada e um caminho aberto. Tem agora a responsabilidade de preservar o que foi feito, ir mais longe e garantir que Guimarães não perde, na execução nacional, a centralidade que conquistou na construção do projeto. É neste momento, antes de o programa estar fechado e de os recursos serem distribuídos, que Guimarães deve exigir compromissos concretos.
A estrutura operacional dos primeiros anos das comemorações deve funcionar permanentemente em Guimarães. O Município e a Universidade do Minho devem participar de forma efetiva nos trabalhos da Comissão Executiva.
O dia 24 de junho de 2028 deve ser assumido como o momento central das comemorações, com a principal cerimónia de Estado realizada no Campo de São Mamede.
Os projetos científicos, culturais e educativos já desenvolvidos devem ser integrados no programa nacional, com financiamento, calendário e responsabilidades claramente definidos. E as comemorações têm de deixar um legado permanente.
Um Centro Nacional da Fundação de Portugal. Um arquivo histórico e digital acessível ao mundo. Uma rede educativa nacional coordenada a partir de Guimarães. A valorização definitiva do Campo de São Mamede e dos lugares ligados à fundação.
Uma comemoração sem legado será apenas uma sucessão de discursos, espetáculos e fotografias com data para terminar. Será uma despesa com memória curta.
Deve igualmente ser retomado o debate sobre a consagração do dia 24 de Junho como Dia Nacional da Fundação de Portugal e sobre a atribuição, pelo menos em 2028, da dignidade de feriado nacional a essa data. É uma posição que defendo há anos.
Quanto à escolha de Paulo Portas, não deve ser esse o centro da discussão. O seu percurso e a sua capacidade de projeção internacional podem ser úteis. O problema não é o nome do comissário. O problema é o modelo.
Quem decide? Onde funciona a estrutura? Como são distribuídos os recursos? Que capacidade de intervenção terá Guimarães? Que legado ficará na cidade? São estas as perguntas que devem ser feitas. Com firmeza, mas sem hostilidade. Com ambição, mas sem provincianismo. Com abertura ao país, mas sem submissão perante o centralismo.
Esta não é uma causa de Domingos Bragança, da atual liderança municipal, de Paulo Portas ou de qualquer partido. É uma causa de Guimarães.
O Governo ainda vai a tempo de reforçar a presença da cidade na estrutura de decisão. A Câmara Municipal ainda vai a tempo de exigir garantias. Os representantes políticos ainda vão a tempo de falar a uma só voz. Mas é preciso agir agora. Antes de o programa estar fechado. Antes de os orçamentos estarem comprometidos. Antes de todas as decisões importantes serem tomadas longe daqui.
Portugal pode e deve celebrar os seus 900 anos em todo o país. Mas deve fazê-lo a partir do lugar onde o primeiro passo foi dado. Porque as comemorações podem pertencer a todos. Portugal é de todos os portugueses. Mas Guimarães não pode ser convidada para assistir à História que começou dentro das suas próprias muralhas. Portugal nasceu aqui. E Guimarães não pode ser figurante na sua própria História.
Sérgio Castro Rocha
Publicado em: 04/08/2026