Convidado de honra do colóquio que marcou o arranque das comemorações dos 50 anos do Grupo Desportivo de Serzedelo, Júlio Mendes aproveitou a oportunidade para deixar várias mensagens sobre a actualidade do Vitória, mas não só.
O presidente vitoriano falou igualmente sobre o momento do futebol português, deixando vários reparos e sugestões quanto a mudanças que possam beneficiar todos os clubes e não apenas os três habituais.
Num contexto em que se discutiu a importância da formação e do futebol amador para o apoio ao futebol profissional, Júlio Mendes fez vários elogios ao trabalho que tem sido feito no Vitória nos últimos anos, concretamente depois da criação da equipa B, que tantos frutos tem dado ao clube, tanto no plano desportivo, como também financeiro: “O Vitória tem o projecto de equipa B que mais tem conseguido dar frutos. Isso também se deve à capacidade dos profissionais que estiveram à frente das várias equipas técnicas, que sabem que liderar uma equipa B implica sacrifícios, trabalhar de uma forma diferente, porque o trabalho está focado na formação e não em ganhar. É mais complicado ter sucesso. Por isso, tenho de deixar palavra de reconhecimento ao Vítor Campelos e ao Marco Alves” (ambos estavam ao seu lado na tertúlia que decorreu na Igreja Românica de Serzedelo, onde marcou igualmente presença o treinador da formação principal). De resto, Pedro Martins tem sabido tirar partido desse trabalho levado a cabo na equipa B, como se percebeu nas recentes apostas em João Pedro, entretanto transferido para o LA Galaxy, Konan e mesmo Raphinha, que iniciou a sua etapa no Vitória pela formação secundária.
Apresentando a realidade do Vitória como um exemplo paradigmático, Júlio Mendes defendeu a ideia de que a formação “é absolutamente estruturante. O passado recente fala por nós. Quando começámos este projecto, há cinco anos, tivemos de tomar uma opção arriscada de construir a equipa B, ou não. Significava mais encargos numa altura difícil do clube. Entendemos que era absolutamente fundamental para que os jovens tivessem espaço para crescer e chegar à equipa principal”.
"Aposta na formação para sustentar os clubes"
Com uma saúde financeira que lhe permitiu esta temporada fazer um investimento mais forte no futebol profissional, o Vitória continua a deparar-se com problemas de ordem económica. A venda de jogadores é inevitável porque, sustentou Júlio Mendes, “em Portugal, todos os clubes são deficitários, mas há uns que tentam esconder isso. As receitas que têm não chegam para 60 por cento dos custos. É preciso juntar a esta equação as receitas com as transferências dos jogadores. Se não apostarmos na formação, não vamos ser capazes de sustentar os clubes e competir nas competições internacionais. Todo o edifício pode ruir”. “Hoje, o futebol é mais do que nunca uma actividade económica. Se não for vista nesta perspectiva não a conseguimos sustentar”, frisou o dirigente.
"Não quero ficar toda a vida no Vitória"
Líder da Direcção do Vitória há cinco anos, Júlio Mendes já conhece bem os meandros do dirigismo desportivo. Por isso, afirmou às várias dezenas de presentes que o futuro tem de ser preparado com “a formação de dirigentes”, apontando o seu caso como exemplo: “Sou presidente do Vitória há cinco anos, mas não quero ficar lá toda a vida.
Gostava de ser substituído por alguém que pudesse continuar com a mesma estabilidade. Quando as pessoas se entusiasmam, fazem as coisas com o coração. O futebol tem uma dimensão tal que se as pessoas não estiverem preparadas vão estar a aprender e depois as coisas podem correr mal. É que a parte mais difícil está feita, mas o que está feito é muito fácil de estragar”.
"É importante as pessoas apoiarem o clube da terra"
Principal embaixador do Concelho, o Vitória tem tendência para ocupar uma posição hegemónica sobre os clubes mais pequenos de Guimarães. Uma tese que não faz sentido total para Júlio Mendes, que deixou claro que, na sua óptica, há “espaço para todos”, uma vez que “não faz sentido nenhum ter uma posição hegemónica”. Neste contexto, disse que numa reunião recente na sede da Federação Portuguesa de Futebol, cujos interlocutores não foram revelados, transmitiu a ideia de que “é cada vez mas importante que se leve à prática uma campanha para que as pessoas apoiem o clube da sua terra, o que não acontece em muitas situações e cria desigualdades difíceis de esbater. Se isso não acontecer, depois assistimos a este espectáculo que é ter jogos com 1.000 ou 2.000 pessoas. Isso não é interessante, não potencia o espectáculo, não permite que os clubes cresçam, serão sempre os mesmos a ganhar. As pessoas têm de perceber que devem ter uma responsabilidade social e apoiar os clubes da sua terra. São aqueles que transportam o estandarte daquela comunidade”.
"Governos não apoiam as instituições"
O papel que o Estado português deve ter no futebol português mereceu igualmente reparos por parte do líder vitoriano. Júlio Mendes entende que “esse papel tem sido assumido de forma pouco convicta. Fico preocupado quando vejo que os Governos não apoiam as instituições para que possam desenvolver este papel de responsabilidade social e se percam em investimentos supérfulos, com a preocupação de fazerem mais uma rotunda. O futuro dos filhos e dos netos tem muito mais a ver do que as fitas que cortam. Os responsáveis locais e nacionais têm o dever de apoiar mais a formação e os clubes. Os clubes andam a substituir-se ao Estado, com o sacrifício de muita gente”.
Publicado em: 28/03/2017