Pensei bastante se deveria escrever sobre este assunto. Deixei passar alguns dias, procurei afastar-me do ruído, amadureci a reflexão e pesei as palavras.
Mas não consigo não o fazer, porque há temas sobre os quais o silêncio também é uma posição. E este é um deles. Por isso, hoje escrevo.
A receção do Embaixador de Israel em Portugal, Oren Rozenblat, pelo Presidente da Câmara Municipal de Guimarães gerou discussão, posições políticas diferentes e alguma contestação. Ricardo Araújo explicou que recebe embaixadores acreditados no nosso país e representantes de Estados com os quais Portugal mantém relações diplomáticas. É um argumento que
compreendo. Portugal mantém relações diplomáticas com Israel e não cabe a um presidente de Câmara definir a política externa portuguesa.
Entretanto, na Assembleia Municipal, Ricardo Araújo afirmou também subscrever a posição do Governo relativamente ao conflito em Gaza, reiterando que continuará a receber todos os embaixadores acreditados em Portugal que o solicitem. Lembrou ainda o investimento em curso no Avepark, na ordem dos 12 milhões de euros, com a previsão de criação de cerca de 80 postos de trabalho. Registo essa clarificação, que considero importante. Mas ela não altera a questão que aqui coloco, porque a minha divergência não está em saber se o Presidente da Câmara reconhece a gravidade do que acontece em Gaza. Está na escolha institucional que fez e no significado que, neste contexto, essa escolha assume.
Se eu estivesse no lugar do Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, neste momento e nestas circunstâncias, não teria recebido o Embaixador de Israel. Digo-o com serenidade e não por qualquer sentimento contra o povo israelita, muito menos confundindo o Estado de Israel, o seu Governo, o povo israelita ou a comunidade judaica. Essa distinção é essencial. Também não esqueço o ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023, as suas vítimas e o sofrimento causado a tantas famílias israelitas. Uma coisa não apaga a outra.
O que está em causa é perceber se todos os atos institucionais podem ser tratados como se acontecessem fora do tempo e das circunstâncias em que vivemos. E não podem. A visita a Guimarães não foi apresentada apenas como uma breve cortesia protocolar. Foram publicamente referidas possibilidades de colaboração na tecnologia, inteligência artificial, desenvolvimento de software, indústria avançada, setor espacial, setor têxtil e investimento, incluindo a instalação no Avepark de uma unidade industrial ligada a uma empresa israelita.
É precisamente aqui que a questão ganha outra dimensão, porque Gaza existe e aquilo que se passa em Gaza não pode desaparecer quando se atravessa a porta dos Paços do Concelho. Quase um ano depois do cessar-fogo que entrou em vigor em outubro de 2025, continuam a ser conhecidas enormes necessidades humanitárias, população deslocada, destruição, vítimas civis e fortes limitações no acesso a bens essenciais. Não estamos perante uma realidade distante ou encerrada nos livros de História. É uma tragédia humana que continua diante de nós.
É por isso que não consigo olhar para esta visita apenas através da lente da diplomacia ou das oportunidades económicas. Um presidente de Câmara não faz a política externa do país, é verdade, mas faz escolhas. Escolhe quem recebe, quando recebe, o enquadramento que dá à reunião e aquilo que comunica aos cidadãos. Pode também escolher deixar claro que nenhuma possibilidade de cooperação económica ou tecnológica nos deve tornar indiferentes ao sofrimento humano ou ao respeito pelo Direito Internacional. É aqui que reside a minha divergência.
Mariana Silva trouxe o tema para o debate público local e a CDU questionou as justificações políticas e éticas da receção. Outras forças políticas fizeram igualmente perguntas e manifestaram posições críticas. Faz parte da democracia e considero importante que assim seja, porque quem exerce o poder deve estar disponível para explicar as suas escolhas, sobretudo quando essas escolhas ultrapassam a gestão corrente e entram no domínio dos valores.
César Viana, diretor artístico do Festival Internacional de Música Religiosa de Guimarães desde 2023, decidiu abandonar essas funções, invocando razões de consciência relacionadas com a aproximação institucional e comercial a Israel. Podemos concordar ou discordar da sua decisão, mas ela demonstra que aquilo que aconteceu nos Paços do Concelho dificilmente pode ser reduzido a uma visita diplomática sem significado político ou ético.
Quero Guimarães aberta ao mundo, capaz de atrair investimento, conhecimento, empresas, tecnologia, talento e inovação. Quero que Guimarães tenha relações internacionais fortes e que saiba aproveitar todas as oportunidades que contribuam para o seu desenvolvimento. Mas internacionalizar uma cidade não é apenas procurar oportunidades; é também afirmar valores.
E é precisamente quando existem interesses económicos relevantes, investimentos de milhões de euros e dezenas de postos de trabalho em perspetiva que esses valores são verdadeiramente postos à prova. Não ignoro a importância de um investimento de 12 milhões de euros nem o significado de 80 novos empregos para o território. Seria irresponsável fazê-lo. Mas também não aceito que o desenvolvimento económico possa, por si só, encerrar uma discussão que é igualmente ética e política.
Os valores revelam-se quando têm um custo, quando seria mais fácil não levantar questões e quando o interesse económico aponta numa direção, mas a consciência obriga-nos, pelo menos, a parar e a pensar. Não faço desta matéria uma disputa partidária, nem considero que quem pensa de maneira diferente tenha menos preocupação com a paz ou com a vida humana. Digo apenas aquilo que eu faria: eu não receberia o Embaixador de Israel neste momento.
Não fecharia portas para sempre, não confundiria povos com governos e não transformaria Guimarães numa extensão da política externa portuguesa. Mas entenderia que há momentos em que um gesto institucional vale mais do que o protocolo e que este era um desses momentos.
Guimarães tem uma história feita de liberdade, coragem e afirmação. Essa história também nos exige que saibamos olhar para além dos nossos interesses imediatos, porque há visitas que são apenas visitas e há outras que, pelas circunstâncias em que acontecem, dizem muito mais sobre nós do que sobre quem recebemos.
Publicado em: 30/09/2026