1. Mais uma vez, com muita solenidade, celebrou Guimarães a data que nos últimos séculos tem vindo a despertar a atenção
e consciência dos vimaranenses e dos portugueses como o grande marco histórico e contributo decisivo na formação de Portugal, o estado/nação com fronteiras definidas mais antigo da Europa.
Embora fisicamente ausente, fui tendo possibilidade de acompanhar o desenrolar de alguns dos eventos que ficaram a assinalar as comemorações deste ano de 2026.
Tal como tem acontecido ao longo das últimas décadas, de um modo muito especial durante os 24 anos de Presidência de António Magalhães, este dia contou com a presença de um prestigiado membro do governo, Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas e Habitação, que participou também na inauguração da Requalificação do Bairro da Emboladoura.
De entre tudo aquilo que ficou conhecido, registo as condecorações muito justamente atribuídas neste ano, contemplando ilustres vimaranenses, alguns já partidos para a eternidade, que deixaram marcas bem visíveis no serviço e engrandecimento que prestaram à nossa Terra.
Ainda no âmbito das comemorações dos 898 anos da batalha de S. Mamede, mereceu-me especial atenção o brilhante discurso proferido na sessão solene pelo Presidente da Câmara Municipal, Dr. Ricardo Araújo, que pela primeira vez teve a primazia de a ela presidir.
Depois de realçar a importância da batalha de S. Mamede como o momento em que se iniciou um novo período em que é posto fim à dependência de vontade alheia, justifica “com firmeza, serenidade institucional e sentido de estado o pedido de que em 2028, quando se cumprirem os 900 anos da batalha de são Mamede, seja o dia 24 de junho celebrado como feriado nacional”.
Mais adiante, e evocando a frase “Aqui nasceu Portugal”, bem presente na memória dos vimaranenses e de quem nos visita, lembra a responsabilidade de quem ama e serve Guimarães formulando a pergunta: que futuro temos ainda coragem de começar?
Refere depois aquilo que de imediato se impõe. Resolver os problemas candentes da vida dos vimaranenses: casa acessível, transporte gratuito, saúde próxima, segurança, escola digna, emprego qualificado, cultura viva, desporto, ambiente cuidado, tempo para viver melhor.
Debruçou-se de seguida sobre os principais projetos em curso e sobre as grandes linhas transformadoras de Guimarães com vista ao futuro.
O ministro Miguel Pinto Luz presente, reconheceu a batalha de S. Mamede como a manifestação decisiva de independência e de afirmação de um povo recordando o mural do pintor Acácio Lino, obra de 1922 exposta no museu da Assembleia da República com o sugestivo título: “a primeira tarde portuguesa”.
Na verdade, a importância da batalha de S. Mamede foi, desde tempos remotos, objecto de várias interpretações. Por volta dos anos 1185/1186 em documento redigido por anónimo cónego regrante de Santa Cruz de Coimbra, “Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses,” foi entendido que com S. Mamede se obteve o governo e a monarquia do reino de Portugal.
“Na Era de 1166 [A.D. 1128], mês de junho, na festa de S. João Baptista, o ínclito infante D. Afonso, filho do conde Henrique e da rainha D. Teresa, neto do grande imperador da Hispânia D. Afonso, com o auxílio do Senhor e da divina clemência, e ainda por seu zelo e esforço dedicados – mais do que por vontade ou auxílio de seus pais –, obteve o reino de Portugal com mão forte.
Uma vez que tinha falecido o seu pai, o conde D. Henrique, quando ele ainda era uma criança de dois ou de três anos, uma certa gente indigna e estrangeira reivindicava o reino de Portugal, com a sua mãe, rainha D. Teresa, a dar-lhes o seu consentimento, desejando também ela, com soberba, reinar em lugar do seu marido e afastar o filho dos negócios do reino. Como ele não fosse capaz de tolerar, de forma alguma, uma injustiça tão grande e verdadeiramente desonrosa, pois já era de maior idade e tinha bom carácter, tendo reunido os seus amigos e os nobres mais ilustres de Portugal – os quais, sem
comparação, desejavam que fosse ele a reinar sobre si, mais do que a sua mãe ou a tal gente indigna e estranha à nação –, travou com eles batalha no campo de S. Mamede, que fica perto do castelo de Guimarães; e foram por ele destroçados e vencidos, e fugiram da sua face, e ele aprisionou-os. Obteve, assim, o governo e a monarquia do reino de Portugal.” (1)
Depois, ao longo dos tempos, foram aparecendo vários trabalhos preterindo S. Mamede em favor de outros momentos como Ourique e até o Recontro de Valdevez. Chegados a 1846 com a publicação do seu primeiro volume da História de Portugal, Alexandre Herculano, depois de fazer um enquadramento social, político e militar restituiu à batalha de S. Mamede a sua real importância e significado identificando-o como “o acontecimento primordial que viabilizou a evolução do condado portucalense para o Reino de Portugal”.(2)
Mais tarde, em 24 de Junho de 1978, aquando das comemorações dos 850 anos da Batalha de S. Mamede, proferiu o historiador José Mattoso uma brilhante conferência na Sociedade Martins Sarmento com o título “A Primeira Tarde Portuguesa”, uma análise exaustiva e muito detalhada sobre o acontecimento demonstrando o papel desempenhado por um grupo social coerente liderado por D. Afonso Henriques enfrentando em S. Mamede adversários poderosos, demonstrando a viabilidade da nação.
2. Para esclarecimento dos leitores, o autor, que não é historiador nem tão pouco licenciado em história, mas tão somente um cidadão por ela apaixonado, consciente da sua importância na construção do futuro, vem dar a saber que o anterior artigo publicado nesta coluna foi todo ele praticamente elaborado com base em duas das edições do programa “Visita Guiada” da autoria da jornalista Paula Moura Pinheiro, com o medievalista e ilustre professor universitário Luís Carlos Amaral.
Guimarães, 6 de Julho de 2026António Monteiro de Castro
(1) Revista A Magazine — Tradução parcial de “Os Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses” de autoria de cónego anónimo da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz de Coimbra – “A Batalha de S. Mamede e o seu significado”, por Prof. Luís Carlos Amaral.
(2) Revista A Magazine — “A Batalha de S. Mamede e o seu significado”, por Prof. Luís Carlos Amaral
Publicado em: 07/07/2026