“Mas a sua pergunta é outra, mais difícil e mais exigente: que futuro temos ainda coragem de começar?”
A frase foi dita por Ricardo Araújo na sessão solene do 24 de Junho. E talvez seja a melhor forma de ler o Dia Um de Portugal do novo ciclo político em Guimarães. E a resposta do executivo encontrou reflexo nas comemorações deste ano.
O 24 de Junho não é apenas memória. É uma pergunta sobre o que fazemos hoje com a responsabilidade de sermos a cidade onde Portugal começou.
O dia começou na Colina Sagrada, com o Exército, junto à estátua de D. Afonso Henriques, a homenagear a memória do fundador, do país e do que viriam a ser as Forças Armadas. Ali está a lembrança de que Portugal nasceu de uma vontade. De uma afirmação. De uma escolha.
A memória e a cultura foram também honradas com a missa solene, numa celebração com uma dimensão artística de grande qualidade. Foi um momento de elevação, religiosa, cultural e cívica. Isso também importa. Uma cidade que honra a sua história deve fazê-lo com exigência e qualidade. Com respeito pelo património que recebeu e com ambição na forma como o apresenta.
Apesar de Guimarães ter hoje em curso o maior volume de obras públicas, o dia não foi preenchido por uma sucessão de inaugurações. Houve apenas uma: a reabilitação do Bairro da Emboladoura.
Uma inauguração que sinaliza a prioridade clara da habitação. Mas também a coesão social. A dignidade. A atenção aos lugares onde a vida das pessoas acontece todos os dias.
Porque uma cidade só tem futuro se as pessoas puderem viver nela. Se puderem ficar. Se puderem fazer planos. Se encontrarem casa, trabalho, escola, transporte, cultura, segurança e tempo para viver melhor.
Por isso, a pergunta não é apenas quantas obras se inauguram num dia. A pergunta é que prioridades se tornam visíveis quando a cidade olha para si própria?
Essas prioridades foram também visíveis na sessão solene. Para além de um relevante discurso de Ricardo Araújo, em que expôs a sua visão estratégica e anunciou projetos para as concretizar em horizontes temporais realistas.
O sinal visível foi a estreia de uma criação artística alegórica ao dia evocado.
“Guimarães, Cidade Contínua – A Batalha pela Independência” foi protagonizada por associações, grupos culturais e artistas maioritariamente locais. O espetáculo conduziu o público por uma criação artística de
expressões contemporâneas, numa viagem simbólica da busca de identidade e afirmação. Não presa no passado, mas a pensar nos dias de hoje.
Inspirada (e interpretada) em práticas urbanas como o skate e os patins.
Práticas que muitas vezes estiveram à margem. Que nem sempre foram compreendidas. Que pertencem a muitos jovens e à forma como vivem a cidade.
Dar-lhes palco foi também um gesto simbólico. Foi reconhecer que a identidade de Guimarães não está fechada no passado. Continua a ser construída.
Continua a ganhar novas linguagens. Continua a ser feita por quem vive a cidade hoje.
O skate e os patins não substituem a história. Não são a Batalha de São Mamede. Mas podem ajudar a pensar uma ideia simples: cair, levantar, tentar de novo, melhorar, insistir, conquistar o espaço.
Uma cidade cresce assim. Uma comunidade também se afirma assim. O futuro também se constrói assim.
Com tentativa. Com erro. Com persistência. Com coragem para legitimar novas práticas, novas gerações e novas formas de participação.
“Aqui Nasceu Portugal” é uma frase forte, única, que nos marca e distingue.
Mas não pode servir para nos acomodar. Deve fazer o contrário. Deve obrigar nos a querer mais. Se aqui nasceu Portugal, então aqui deve continuar a nascer futuro.
Futuro na habitação. Futuro na coesão social. Futuro na cultura. Futuro na juventude. Futuro na economia. Futuro na inovação. Futuro na qualidade de vida.
Que futuro temos ainda coragem de começar?
Esta é talvez a pergunta certa para Guimarães neste momento.
Porque a cidade tem memória. Tem património. Tem identidade. Tem instituições. Tem talento. Tem empresas. Tem universidade. Tem cultura. Tem jovens. Tem capacidade para fazer mais.
O desafio é ligar tudo isso. E transformar a memória em ambição. Transformar a ambição em ação. Transformar a ação em melhor vida para as pessoas.
Guimarães começou Portugal em 1128. Mas nenhuma cidade vive apenas do começo que herdou. Vive dos começos que ainda tem coragem de iniciar.
Esse é o verdadeiro sentido deste 24 de Junho. Honrar a origem, sim. Mas sobretudo fazer dela uma força para construir futuro
Publicado em: 30/06/2026