“Entrelaçar o design de moda com os saberes ancestrais e culturais têxteis femininos no Norte de Portugal, procurando compreender e valorizar os diálogos existentes entre as artesãs têxteis, os designers de moda, a sustentabilidade cultural e as metodologias de ensino em design de moda” é o principal propósito de Fernanda Enéia Schulz, doutoranda e investigadora em Design de Moda.
Natural da cidade de Carazinho, no Rio Grande do Sul, extremo Sul do Brasil, nos últimos anos, viveu em Santa Catarina, “numa pequena vila de pescadores com fortes origens portuguesas, denominada Porto Belo, nome atribuído pela Princesa Isabel”.
Em 2008, veio pela primeira vez a Guimarães para realizar um intercâmbio de estudos de seis meses na Universidade do Minho, ainda durante a licenciatura em design de moda. Passados nove anos, regressou à mesma instituição para realizar o Mestrado em Design de Comunicação de Moda, aprofundando a relação académica com a Cidade.
Actualmente, desde 2024, frequenta o Doutoramento em Design de Moda na Escola de Engenharia Têxtil (DET) da Universidade do Minho, desenvolvendo investigação como doutoranda integrada no Centre for Textile Science and Technology (2C2T), com bolsa de investigação da FCT.
Apesar de não ser oriunda de uma família com tradições têxteis, Fernanda Schulz desde cedo sentiu o incentivo dos pais para praticar actividades criativas e manuais. “Entre essas actividades, desenvolvi um interesse particular pelas práticas têxteis, que venho exercitando desde a adolescência, sobretudo o crochê pelo qual sou apaixonada. O interesse pela relação entre o têxtil e o labor feminino surgiu a partir de uma curiosidade inicial em compreender as dinâmicas das relações femininas e os seus saberes, frequentemente associados à vida rural, doméstica, social, política e económica. Interessa-me compreender de que forma essas relações se constituem, como se transformam ao longo da história, como se manifestam na contemporaneidade e quais as suas perspectivas de futuro”, elucida, ao destacar que, na Universidade do Minho, através do acompanhamento proporcionado pela Professora Doutora Joana Cunha, encontrou suporte académico para aprofundar essa relação, “desenvolvendo o trabalho prático associado ao crochê, a investigação sobre as ancestralidades têxteis femininas e adquirindo novos conhecimentos ligados ao print natural e à coloração têxtil natural, áreas que tenho explorado por meio da participação em workshops e experiências práticas”.
Nesse sentido, explica, “as actividades académicas e museológicas tornam-se fundamentais para a construção de diálogos possíveis entre moda e artesanato, sendo igualmente relevantes para que o design de moda contribua para a salvaguarda da cultura têxtil imaterial. É neste contexto que a exposição “Entre memórias, fios e futuros possíveis” surge, encontrando patente na galeria de exposições da Sociedade Martins Sarmento.
Através do trabalho que está a desenvolver, a investigadora pretende desenvolver a reflexão sobre a participação feminina no desenvolvimento histórico, cultural e económico do território, “entendendo o design de moda como uma área capaz de contribuir para a preservação, a reinterpretação e a continuidade das tipologias artesanais têxteis que integram o léxico cultural feminino da região”.
Para além disso, acrescenta, “o estudo propõe o desenvolvimento de materiais didáticos e de metodologias criativas que abordem a cultura têxtil ancestral feminina sob a óptica do design de moda”. “Através da troca de experiências entre artesãs e designers, da recolha e do mapeamento de práticas e saberes, e da construção de narrativas visuais e pedagógicas, o projeto procura conectar valores do passado e do presente, com uma perspetiva orientada para o futuro”, observa, indicando que a conclusão do projecto está prevista para a segunda metade de 2027.
Fotos: Ylan Santos (@from84)
Publicado em: 29/01/2026