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Crime de “lesa-Pátria”: Há 50 anos Museu de Alberto Sampaio foi assaltado e jóias do “tesouro” da Colegiada não foram recuperadas

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A comunidade vimaranense não esqueceu o “audacioso” assalto ao Museu de Alberto Sampaio, ocorrido a 16 de Novembro de 1975, dia em que várias peças de ourivesaria do “tesouro” da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira desapareceram, causando profunda revolta.

Volvidos 50 anos, as jóias continuam desaparecidas. Os autores do assalto foram julgados e condenados, mas nunca chegaram a cumprir a pena de prisão ou sequer a pagar as indemnizações. O seu paradeiro é tão incerto como os artigos de valor incalculável subtraídos através deste crime hediondo de ‘lesa-Pátria’ cujo impacto à época poderá ser comparado com o do recente assalto ao Museu do Louvre, em Paris.

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Foram roubadas peças e jóias de incalculável valor, num “golpe protagonizado por um casal que teve a colaboração de outro na fuga que empreenderam de automóvel”. 

O crime ocorrido nesse domingo de outono surge descrito pelo nosso jornal, na sua edição de 22 de Novembro de 1975. “Na hora de encerramento o principal funcionário Fernando Cunha foi violentamente agredido e manietado, enquanto os assaltantes roubavam as peças e jóias valiosíssimas que constituíam grande riqueza do tesouro de Nossa Senhora da Oliveira”. “O golpe obedeceu a um plano devidamente estudado, com estratagemas e foi posto em prática a hora que os assaltantes julgaram a mais propícia, como realmente era. Foram roubados os seguintes valores: – Coroa de Nossa Senhora da Oliveira, de ouro e pedras preciosas, do século XVIII; peitoral em prata dourada e peças preciosas, também do século XVIII; meada de ouro puro, com 32 metros; do século XVIII; passador de prata, século XIV; rosário de ouro, também do século XIV, cordão de ouro também do século XVII; orilhão de ouro, século XVII; cruz de ouro (indiana) do século XVII; e outra peça de prata do século XIV.

Dizia uma mulher do povo, desse povo que sabe sentir as ofensas que lhe fazem e tem o coração perto da boca: – persigam os ladrões, agarrem-nos e enforquem-nos… Nesta expressão dura, mas sincera, essa mulher do povo, representa a voz do mesmo povo que está saturado de roubos, de assaltos, de inquietações e de falta de autoridade que transforma a Nação numa selva em que reina o acto sem lei.

Roubaram as jóias valiosíssimas do célebre tesouro da Colegiada, que tinham séculos! Essas jóias estavam à guarda da Nação que faziam parte do recheio de um Museu oficial. O roubo, portanto, é feito ao património nacional. Salvas essas jóias da soldadesca napoleónica, aquando da invasão de Portugal, apesar de isso ter custado a essa igreja da Colegiada, o roubo de 35 arrobas (525 quilos) de prata lavrada, maioria delas históricas, pois faziam parte do espólio da Batalha de Aljubarrota e oferecidas a Nossa Senhora da Oliveira por D. João I, em 1385. Agora nas mãos de gatunos essas jóias serão derretidas, as pedras preciosas vendidas ao desbarato e assim se perderão valores cheios de antiguidade e de história.

A crise de autoridade tem servido à maravilha para a acção desenfreada dos ladrões que não deixam de a aproveitarem como até em a provocar. A população vimaranense ficou desolada com este roubo do «tesouro da Cidade»”.

Funcionário atacado pelos assaltantes

Em 2016, já aposentado, o funcionário do Museu Fernando Cunha descreveu ao nosso jornal esse episódio. As portas do Museu de Alberto Sampaio estavam prestes a fechar para almoço, mas no seu interior ainda estava um casal jovem de visitantes, portugueses, com sotaque lisboeta, dirigindo-se para a porta de saída. “Páram e apreciam postais ilustrados. Compram dois postais. São sete escudos, indica o funcionário Fernando Cunha, um vimaranense de 40 anos. O visitante tira uma nota de 20 escudos da carteira e diz ao funcionário para ficar com o troco. Uma boa gorjeta que não permite a Fernando Cunha negar um favor. O casal pediu para acompanhá-los de novo ao andar superior para tirar uma fotos”, recordou.

O colega de Fernando Cunha que ouviu o pedido e a anuência, sai para almoçar e fecha a porta do Museu. Fernando Cunha e o casal de visitantes começam então a subir as escadas e eis que o funcionário é atingido com uma pancada na cabeça.

“Penso que foi com a coronha da arma”, disse, indicando que acabou manietado, de mãos amarradas com o próprio cinto e com uma laranja na boca, presa por fita cola.

“Isto é um assalto”, disse o homem que entrou no Museu como visitante e sairia como ladrão.

Os três dirigiram-se para a sala de ourivesaria. O ladrão foi a uma das janelas de onde terá comunicado a um alegado casal cúmplice que se encontrava junto à entrada do Museu de que tudo estava a correr como planeado.

Fernando Cunha foi sentado numa cadeira, enquanto o ladrão se dirigiu para o armário que guardava e exibia valiosos tesouros do espólio daquele espaço museológico vimaranense.

Autores do crime condenados à revelia

Os autores do crime pertenciam a um comando do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), movimento de resistência à crescente influência do Partido Comunista Português e dos vários grupos de Extrema-Esquerda, criado após o 11 de Março de 1975 e extinto a seguir ao 25 de Novembro desse ano, em que a frágil democracia enfrentou o denominado «Verão quente». O casal composto pelo ex-primeiro-tenente fuzileiro José Maria da Silva Horta, desertor das Forças Armadas após a falhada intentona do 11 de Março, e por Maria Alice da Silva Marques, antiga Secretária de um dirigente do chamado Partido do Progresso. No dia anterior, tinham estado no interior do museu numa visita que serviu de reconhecimento, ficando cá fora um outro casal à sua espera, dentro de um carro de marca Datsun. 

No referido carro, viajaram até Chaves, pernoitando em casa de um outro elemento do MDLP, dirigindo-se depois para Espanha.

Nos dias seguintes, a Unidade Vimaranense fez um apelo “à consciência daqueles que num acto irresponsável se tinham apoderado da coroa, jóia insubstituível do património nacional”. O Prior da Colegiada, D. António Araújo, qualificou o roubo como um “crime de lesa-Pátria”, considerando que “não há dinheiro que pague as jóias”.

Os autores do assalto nunca foram encarcerados. O ex-tenente Silva Horta desapareceu sem deixar rasto, embora tivessem circulado informações de que teria sido identificado no Brasil, e Maria Alice chegou a ser detida em Cascais, mas conseguiu fugir do Hospital Miguel Bombarda, onde estava internada sob prisão. Ambos foram julgados e condenados à revelia, em 1987, a 20 e 15 anos de prisão e ao pagamento de um milhão de contos.

As jóias nunca foram recuperadas, havendo versões de que teriam sido vendidas ao desbarato em diversos lugares.  

*Excerto de artigo que será publicado na edição da próxima quarta-feira, do jornal “O Comércio de Guimarães”.

Publicado em: 16/11/2025

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