Mais de oito séculos após a chegada a Guimarães do fundador do convento franciscano, o culto a São Gualter continua “vivo”, a alimentar a devoção de muitos fiéis que confiam na sua intercessão para a obtenção de apoio espiritual e obterem graças.
Junto da representação do santo e das suas relíquias, depositadas num altar lateral da monumental igreja de São Francisco, são frequentemente depositadas mensagens, com preces escritas em pequenos papéis, numa expressão de fé que leva os responsáveis da Irmandade de São Gualter a realçar que “o culto mantém-se activo, assim como a influência do santo na comunidade”.
“A Irmandade de São Gualter foi fundada em 1527 no convento e igreja de São Francisco. Ao longo dos séculos, a sua actividade reacendeu a chama e a veneração ao culto de São Gualter”, elucidou o Provedor da Instituição, ao lembrar que a ele se deve a propagação em Guimarães do espírito franciscano de paz, através da harmonia pela prática do diálogo, da paciência, da compreensão, do perdão e da contemplação.
Corria o ano 1216 quando Francisco de Assis envia para Portugal dois frades:o Frei Zacarias, que se dirigiu para Alenquer, onde por volta de 1222 edificaram os franciscanos o seu convento num paço doado pela infanta D. Sancha, filha do nosso segundo rei D. Sancho I e irmã do rei D. Afonso II com quem se travou de conflitos; e Frei Gualter, que se dirigiu para Guimarães, instalando-se no local da “Fonte Santa, junto das claras águas dum regato, em cela feita de ramos, continuando a vida eremítica”.
O actual convento franciscano foi fundado nesse século XIII, após a chegada de São Gualter a Guimarães. “Aqui sempre se venerou o seu exemplo de vida. As suas relíquias aqui foram conservadas pelos frades que secularmente foram vivendo e cumprindo a sua missão evangelizadora, inclusive também do seu companheiro São Rodrigo”, acrescentou Pedro Herculano, ao notar que a Irmandade já esteve erecta na igreja de Nossa Senhora da Consolação e dos Santos Passos, mas regressou ao seu local de origem – o convento de São Francisco.
“Foi neste ambiente, imbuído pelo espírito de respeito e pelo exemplo de São Gualter, que a Irmandade nasceu no século XVI, apadrinhada pelos frades franciscanos”, assinalou, realçando a conjugação de esforços que permitiu a manutenção até aos nossos dias da Irmandade de São Gualter, responsável pelo programa religioso das Festas da Cidade e Gualterianas.
“Felizmente, o culto a São Gualter e a sua Irmandade não se extinguiram. Num momento da sua história, a Irmandade de São Gualter esteve durante algumas décadas na igreja da Real Irmandade de Nossa Senhora da Consolação e dos Santos Passos, o que permitiu que se mantivesse viva, reunindo irmãos, crescendo e chegando até aos dias de hoje activa, lembrando à população de Guimarães e a todos o respeito e o exemplo de São Gualter. Ele é o patrono das Festas da Cidade e a sua figura representa uma vida dedicada a Guimarães”, acrescentou, ao enaltecer a vontade e determinação daqueles que zelaram pela reposição da procissão que durante muitos anos não saiu às ruas de Guimarães e o regresso da Irmandade de São Gualter ao convento de São Francisco.
“São Gualter não é o nome de uma igreja, não é só o nome de uma Irmandade, São Gualter é uma personagem de uma importância enorme para a Cidade de Guimarães”, alertou, ao salientar a “parceria fraterna” que tem permitido manter a dimensão religiosa nas Gualterianas, “sempre no primeiro fim-de-semana de Agosto, existindo já um reconhecimento do Vaticano de São Gualter, estando o dia 2 de Agosto estabelecido como o dia de São Gualter”.
No próximo ano, lembrou Pedro Herculano, serão assinalados 810 anos da chegada de São Gualter a Guimarães, “onde se dedicou mais de 40 anos até à sua morte a difundir os valores de Jesus Cristo, baseados no exemplo de São Francisco de Assis. Foi um despertar que a população rapidamente reconheceu nos frades franciscanos, uma devoção extraordinária porque após a morte foram atribuídos milagres a São Gualter, o que demonstra essa relação longínqua de uma comunidade que não o esquece”.
A igreja de São Francisco está diariamente aberta ao culto, tendo as relíquias de São Gualter em exposição. “É uma devoção que está viva e que nos traz muitas surpresas. Com frequência encontramos junto à sua imagem pedidos, mensagens de fiéis escondidas debaixo da toalha do altar. Isto é sinónimo de uma fé que está viva em torno de São Gualter e do ambiente que os franciscanos criaram há mais de 800 anos em todo o mundo. São Gualter é um franciscano e como ele muitos outros criaram um impacto e uma devoção enorme em todo o mundo”, considerou.
Aliás, advertiu, “São Gualter é um discípulo de São Francisco de Assis. Há quem defenda que terá chegado a Guimarães acompanhado por São Rodrigo, mas também há quem diga que integrava uma comitiva na qual estava São Francisco de Assis em peregrinação a Santiago de Compostela e que – São Gualter e São Rodrigo – já não regressaram a Assis, ficando a cumprir a sua missão de evangelização em Guimarães”, apontou, ao sublinhar “a dádiva que constituiu a ligação e testemunho de São Gualter a Guimarães”.
Desta forma, a Irmandade de São Gualter mantém a tradição das celebrações em honra do santo. No próximo domingo, pelas 12h30, realizam-se as festividades litúrgicas em honra do Santo, na igreja de São Francisco. Depois, pelas 17h30, realiza-se a procissão de S. Gualter, com início na Fonte Santa, em Urgezes, até à Igreja de S. Francisco, onde pelas 18h00, continuará pelas ruas da Cidade.
Publicado em: 02/08/2025