Os moradores do Bairro de São Gonçalo, da responsabilidade do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), desesperam com os problemas do prédio que dificultam o seu dia a dia. Na voz do presidente da Associação de Moradores do Bairro de São Gonçalo, Jerónimo Couto, os moradores enumeram várias “lacunas” que afectam as habitações, já depois da reabilitação ter terminado em 2020.
Janelas e portas instaladas incorrectamente, campainhas avariadas, portas de acesso ao terraço sem fechaduras, luzes que permanecem acesas, problemas no elevador, falhas nas tubagens, contador de água ininterrupto ou falta de reparações e pinturas dos tectos são só algumas das “falhas” apontadas pelos moradores.
Com “muito orgulho de habitar num bairro social”, Jerónimo Couto levantou a voz contra o que chama de “genocídio habitacional”. A expressão é forte e incisiva, mas traduz o sentimento de abandono e revolta vivido por centenas de moradores que enfrentam, desde há uma década, promessas adiadas, obras inacabadas e um sistema que, segundo o responsável, “fecha os olhos aos problemas reais da habitação pública”.
A reabilitação no prédio do bairro de São Gonçalo terminava em 2018, mas acabou perto de 2020, segundo Jerónimo Couto. “Puseram a tabuleta ali, dado que uma obra finalizada, em 2020. No entanto, ainda continuaram mais uns meses até terminar a reabilitação. O facto é que ficaram muitas lacunas nessa reabilitação”, denuncia.
O problema foi comunicado ao antigo deputado na Assembleia da República, Ricardo Costa, que confrontou em Fevereiro deste ano o Ministro da Habitação sobre estes problemas, que pediu 30 dias para responder. A resposta do Governo indiciou que foram realizadas várias obras no edifício, mas Jerónimo Couto confronta a resposta com fotos e vídeos a provar o contrário. “O responsável máximo pela habitação em Portugal não conhece o estado lastimável do que está sob a sua tutela”, lamenta.
Entre os exemplos mais graves, Jerónimo Couto aponta o caso das lojas comerciais localizadas no rés-do-chão de alguns blocos. Frutarias, peixarias e cafés estão a ser afectados por infiltrações de água vindas dos andares superiores. “A água cai para dentro dos estabelecimentos. Uma cliente caiu no café, escorregou na água que cai do tecto. Chamamos o IHRU e disseram que iam reparar. Até hoje, tudo na mesma”, atira.
Jerónimo acrescenta que o prédio com “mais problemas foi o único cujos elevadores não foram reabilitados”. “Dizem que não houve verba suficiente. Como é que não há verba se o concurso público define um valor global para a reabilitação?”, questiona.
As queixas não param por aí. Campainhas instaladas durante as obras deixaram de funcionar passado um ano. As luzes dos corredores nunca se apagam. Os ‘polibã’ partem com facilidade devido à má instalação e ausência de fiscalização. “É inadmissível que uma casa nova entregue pelo Estado tenha problemas de infiltrações semanas depois. E quando alertamos, ninguém responde. O IHRU não atende chamadas, não responde a e-mails e ignora as nossas denúncias”, acusa.
O Presidente da Associação recorda o caso de uma moradora com uma filha com deficiência motora que viu o ‘polibã’ da sua casa partir devido à falta de adaptação da habitação. A água infiltrou-se nos pisos inferiores, danificando apartamentos e estabelecimentos comerciais. “O dono da frutaria teve de contratar um camião cisterna do próprio bolso para limpar a loja. Ficou um dia inteiro sem poder facturar. O IHRU ainda não assumiu responsabilidade.”
A falta de resposta institucional está a elevar a tensão no bairro. “Um dia, temo que os moradores se revoltem. A paciência está no limite. Estamos a falar de habitação digna. De condições mínimas. Quando o Estado falha tão redondamente, como pode exigir civismo e responsabilidade aos cidadãos? Há casas vazias com obras mal feitas. Há crianças expostas ao perigo. Isto não é só um problema técnico. É humano. É político”, alerta.
No sentido de esclarecer os contornos deste processo, o nosso jornal contactou por e-mail os serviços centrais do IHRU, para saber quais os motivos que impedem a resolução deste processo. Até ao momento, não obtivemos qualquer esclarecimento.
Publicado em: 30/07/2025