Uma exposição com trabalhos de desenho que evidenciam a faceta artística de Luís de Pina, intitulada “Saber Ver – Desenho Arqueológico de Luís de Pina”, patente na Sociedade Martins Sarmento (SMS), constitui uma manifestação de homenagem a uma das seis “Figuras Eminentes” da Universidade do Porto, em 2025.
Na celebração do bicentenário da criação da Régia Escola de Cirurgia do Porto,, a Faculdade de Medicina daquela Instituição de ensino superior não esqueceu a ligação íntima que Luís de Pina (1901-1972) manteve com Guimarães e com a centenária instituição cultural vimaranense, com manteve uma estreita colaboração.
Numa homenagem realizada no passado dia 20, no salão nobre da SMS, o diretor da Faculdade de Medicina do Porto, Altamiro da Costa Pereira, o coordenador dos Museus da FMUP, José Paulo Andrade, e a historiadora Inês Amorim, destacaram o percurso académico, científico, artístico, social e político de Luís de Pina, contextualizando a sua profícua atividade no tempo em que viveu, e na qual participou Miguel Oliveira, neto de Luís de Pina.
Na ocasião, o Presidente da Sociedade Martins Sarmento saudou a iniciativa, recordando um texto de Luís de Pina publicado em 1953, na Revista de Guimarães. Antero Ferreira assinalou que o homenageado deixou um testemunho sobre a importância que a SMS teve para a sua formação: “Vozes e figuras deslizam e reboam sob os tectos desta nobre e ilustre casa, num redemoinho de fantasmas que só não impressionará quem nunca as tivesse ouvido e visto, com ouvidos e olhos de espírito vígil e grato. Vígil e grato é hoje o meu, nada menos o de quem, moço ainda, dessas personagens e dessas vozes se habituou a colher decisivas lições de vida, de amor à cultura, de apaixonada ternura por aqueles mesmos objectos que foram, afinal, a impressionante finalidade do labor dos ilustres vimaranenses. Por aqui bateu e ensaiou suas tão frágeis pequenas asas, um dia, este cinquentenário. O rapaz de ontem, esse que sob estes muros e gasalhosos tectos, vai para mais de 30 anos, queria saber ver os objectos de seus museus e as laudas dos livros de suas prateleiras – desde a Pedra Formosa e os machados neolíticos, aos inéditos de Sarmento e aos pergaminhos da Colegiada, esse que queria saber ver tanta opulência expressiva, guiado pela mão-mestra de um Eduardo de Almeida, de um Alberto Braga e de um João Lopes de Faria. Fantasmas de majestosos e imperecíveis Mestres desta Casa que é produtiva Universidade livre, em que pela primeira vez, há 30 anos, comecei a conquistar alguns dos meus mais honrosos e queridos graus académicos, a estudar para uma Licenciatura que jamais considero pronta, nem tampouco vencida e transposta”.
A exposição que poderá ser apreciada até 10 de agosto e constitui um apontamento das qualidades artísticas de Luís José de Pina Guimarães, nascido em Luanda, em 1901, mas registado em Lisboa.
Com menos de 8 anos, Luís de Pina regressou de Angola com os pais e irmãos e fixou morada em Guimarães, terra de seu pai.
Em 1921 matriculou-se na Faculdade de Medicina do Porto. Foi aqui que escreveu o seu primeiro livro de poesia Sol Nascente e se tornou médico. Mais tarde, palmilhou todas as bitolas de terra e arquivos vimaranenses para continuar a obra que o médico e professor João de Meira começou e a morte prematura não deixou terminar. Doutorou-se em 1930 na Faculdade de Medicina do Porto com a tese VIMARANES, coletânea arqueológica, etnográfica, histórica, científica e médica. Retomou as suas tarefas iconográficas no Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto e tornou-se chefe de serviço da Repartição de Antropologia Criminal, Psicologia Experimental e Identificação Civil do Porto do Ministério da Justiça, fomentando aí a atualização de Ensaios de Antropologia Criminal. Impõem-se nacional e internacionalmente como historiador. Em 1944, tornou-se Professor Catedrático de História da Medicina e Deontologia Profissional, promovendo a criação do Museu de História da Medicina Maximiano Lemos, que dirigiu até à sua jubilação. Participou na celebração dos 600 anos da Morte do Infante D. Henrique, em 1960. Foi deputado, pelo Porto, à Assembleia Nacional, entre 1938 a 1945 e provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto entre 1953 e 1955.
Como Presidente da Câmara do Porto, de 1945 a 1949, criou bairros sociais, redes de autocarro e serviços de leitura domiciliária. Participou ainda na fundação do Centro de Estudos Humanísticos do Porto, de onde irá emanar a segunda vida da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tornando-se seu diretor de 1961 a 1966. “É um Professor de toda Universidade”, sendo a sua memória evocada como “Figura Eminente 2025”.
De salientar que, enquanto estudante do quinto ano, Luís de Pina escreveu a peça “Onde lhe dói” em colaboração com outros colegas para a celebração do centenário da Faculdade de Medicina. O dinheiro arrecadado destinou-se para as obras da futura maternidade Júlio Dinis. Aliás, coube a Luis de Pina como representante dos estudantes discursar quando foi inaugurada a estátua de Júlio Dinis em frente ao Hospital de Santo António. E a sua última publicação científica foi sobre o centenário do Júlio Dinis
Na passada quarta-feira, “Onde lhe dói?” foi tocado na Casa da Música, na celebração do bicentenário da Faculdade de Medicina.
No programa de atividades ao longo deste ano serão distinguidas outras figuras destacadas da medicina que deixaram as suas marcas em outras áreas de atuação como a literatura ou a arqueologia. São eles: Joaquim Guilherme Gomes Coelho, ou melhor Júlio Dinis (1839-1871), António Plácido da Costa (1848-1916), José Leite de Vasconcelos (1858-1941), Daniel dos Santos Pinto Serrão (1928-2017) e ainda Maria Ângela Brito de Sousa (1939-2020).
Publicado em: 01/07/2025