A ópera “Leonor e Benjamim” vai abrir no próximo dia 21 a tetralogia “O Corpo e o Poder – O Artifício Operático como Processo Analítico” que preencherá mais uma edição do Festival de Canto Lírico de Guimarães. Esta bienal de ópera conta mais três espectáculos, com uma programação que valoriza o talento nacional, com a novidade de introduzir duas sessões de “ópera para bebés”.
O espectáculo de abertura marcado para o grande auditório Francisca Abreu, do Centro Cultural de Vila Flor, com texto de Humberto e António Cabrita, música e encenação de Jorge Salgueiro, “tematiza o massacre dos judeus no início do século XVI em Lisboa”, contextualizou Francisco Teixeira, da Associação Artística Vimaranense, instituição envolvida na alargada parceria estratégica estabelecida com a Associação Setúbal Voz, os Municípios de Guimarães e Setúbal, a Orquestra do Norte e a Oficina, contando com o financiamento da Direcção-Geral das Artes.
Em conferência de imprensa, realizada na passada sexta-feira, Francisco Teixeira explicou que o projecto “que começou por ser uma celebração da música, da voz e da lírica operática, consumou-se, em 2023 e 2024, como um roteiro bienal de celebração e de apresentação da ópera, dando a Guimarães, numa parceria com a Associação Setúbal Voz, um roteiro qualificado e único de apresentação da ópera contemporânea em Portugal, escrita e composta original e expressamente para este projecto”
“Procura-se consolidar a criação, a exploração e a fruição da ópera e do contexto lírico operático, envolvendo não só músicos e libretistas, mas também filósofos, críticos e historiadores de arte”, afirmou, acrescentando que “o projecto não seria possível sem as quatro instituições”.
Francisco Teixeira explicou que, nos últimos anos, o festival tem evoluído para uma mostra sustentada de ópera, “uma forma de criação exigente”, sendo o projecto da tetralogia deste ano ainda “mais exigente”, ao perspectivar que “poderá trazer momentos de grande beleza e grande densidade cultural e artística a Guimarães”.
Referindo-se ao projecto, Jorge Salgueiro, da Associação Setúbal Voz, fez alusão às condições existentes em Portugal, elogiando a capacidade dos profissionais e equipas envolvidas nas criações, “fazendo produções de Hollywood com orçamentos da Marateca”.
Este ano, no dia seguinte a cada récita no Centro Cultural de Vila Flor, na Associação Artistica Vimaranense será realizada uma sessão de ópera para bebés, com início às 11h00. “Tem sido tão grande o sucesso, temos sempre a casa cheia quando fazemos esta iniciativa. Os pais e os bebés adoram”, observou, apelando à participação.
A Orquestra do Norte volta associar-se, tendo a conferência de imprensa de apresentação do festival servido para o maestro Fernando Marinho congratular-se com o anúncio do resultado do concurso nacional para financiamento das orquestras regionais. “A Orquestra do Norte foi contemplada meritoriamente com o apoio de 810 mil euros que, espera-se possa ajudar durante os próximos quatro anos e seguintes e permitam sanar o período de dificuldades que atravessamos”, comentou.
“A ópera é porventura o espectáculo mais completo. Para mim, enquando maestro o simples sentir o cheiro a fosso já por si só é um condimento muito especial para podermos desenvolver a nossa actividade”, observou, mostrando-se “reconfortado” pela possibilidade de estar envolvido num projecto de “fazer ópera que não está ao alcance em todos os lugares”.
O maestro regozijou-se por estarem reunidas as condições para a criação de uma programação regular de ópera em Guimarães, “com uma cadência, com temas muito pertinentes, com compositores, com jovens a aparecer, com encenadores, maestros e intérpretes portugueses”. “É uma oportunidade para dar a conhecer o que são os nossos agentes culturais”, continuou, destacando a importância destes eventos para que “a cultura possa desenvolver-se e crescer, conseguindo que através da música, da ópera e do teatro o futuro seja melhor”.
Paulo Lopes Silva, numa das suas últimas intervenções na sua qualidade de vereador da cultura (suspendeu funções na passada segunda-feira para assumir em exclusivo o mandato na Assembleia da República), realçou o papel da Associação Artística Vimaranense na difusão cultural e artística do canto lírico. “Este projecto só é possível cumprir com um conjunto de recursos que lhe sejam afectados, quer financeiros, quer de infraestruturas”, frisou na qualidade de Presidente de A Oficina, no seu último acto público nessa condição, aproveitando para reflectir sobre o financiamento de toda a estrutura associada aos locais onde serão realizados os espectáculos. “Há recursos disponibilizados pelo Município e pela Direcção-Geral das Artes, mas há também outras duas estruturas relacionadas com o projecto que só pelo facto de já terem outro tipo de financiamento público é possível que este tipo de projectos aconteçam”, indicando que A Oficina tem financiamento do Município, da Rede de Teatros e Cine-Teatros Portugueses, algum do fundo de fomento cultural e que precisava de ter tambºem do Ministério da Cultura. Só se trabalha, programa e opera todos os dias com recursos que já cá estão e são disponibilizados para o Festival de Canto Lírico e para outros acontecimentos que não fazem parte da programação da A Oficina, mas são co-produzidos por esta estrutura”, partilhou.
“O trabalho feito pela ASMAV com este festival é de questionamento, abertura de mentes, de ir ao encontro de projectos menos fáceis de absorver, mas que acrescentam ao tecido cultural vimaranense”, disse, concluindo que o Município está a cumprir a sua missão ao garantir os apoios necessários.
Espectáculos:
21 de junho, 21h30, CCVF – Ópera “Leonor e Benjamim” – com libreto de Humberto e António Cabrita, música e encenação de Jorge Salgueiro. “É uma ópera que tematiza o massacre dos judeus no início do século XVI em Lisboa, um tema recorrente da cultura contemporânea portuguesa, porque é algo que está muito incrustado na nossa memória cultural que inaugurou um tempo de anti-semitismo profundo na Europa e que se repercutiu durante muitos séculos até aos momentos piores do século XX. Incide sobre uma estória de amor que se desenrola neste contexto”, indicou Francisco Teixeira.
22 de novembro, 21h30, CCVF – Ópera “Augustinópolis” – “um dos momentos altos da programação”, numa parceria com O Bando, com João Brites, responsável pela encenação. O libreto é de autoria de Miguel Jesus, a partir de textos de Augustina Bessa Luís, com música de Jorge Salgueiro.
21 de março de 2026, 21h30, CCVF – Ópera “Eu sou alma” – com texto e música de Diogo Faro e João Malha e encenação de Iolanda Rodrigues, “que tematiza o massacre dos palestinianos que está a ocorrer neste momento por parte do governo de Israel, um acontecimento que vai-se incrustar na nossa cultura nos próximos tempos”.
19 de dezembro de 2026, 21h30 – Ópera “Prisciliano” – com texto de autoria de Francisco Teixeira, música de Anne Victorino D’ Almeida e Jorge Salgueiro. “É uma das personagens mais relevantes da cultura peninsular, um personagem decisivo para a construção da identidade ibérica e da cultura peninsular, sobretudo do noroeste peninsular, que constituiu logo nos século IV e depois se estendeu até ao século VI que fez perdurar uma forma de cristianismo a que podemos chamar cristianismo primitivo, ecológico, democrático, em que a igualdade entre homens e mulheres era uma das bases da relação entre os priscilianistas, o respeito pela natureza, com antecipações do que seria hoje a separação entre o Estado e a Igreja. Originou um dos conflitos religiosos mais iniciais dentro da própria Igreja Católica. Prisciliano era um bispo católico e que viveu entre Braga, Viana do Castelo e Santiago de Compostela. Não sabemos onde nasceu. É uma das personagens maiores da cultura portuguesa que ainda é pouco conhecida e tem mais reconhecimento na Galiza do que em Portugal, porque na Galiza é considerado um dos heróis da sua identidade”, frisou Francisco Teixeira, ao referir-se à epopeia priscilianista.
Publicado em: 04/06/2025