Para o meu escrito da presente edição, contrariamente ao que mais frequentemente acontece, que é o de ter que pensar muito antes de
encontrar tema que repute adequado como podendo interessar a quem me lê, até ontem noite tinha, pelo menos, dois temas: um sobre uma belíssima série da NETFLIX, outro sobre o modo como uma boa parte dos portugueses encaram o seu país.
São, porém, temas que ficam de reserva, pois entretanto, esta noite, tive um daqueles sonhos induzidos por vivências que tive, que se misturam e distorcem de modo surreal, o qual, aí pelas quatro horas da madrugada, se extinguiu como colorida bola de sabão que, com desgosto, vemos rebentar e transformar em gotículas pequeníssimas mas ainda assim milhares de vezes maiores que as que andam por aí a transportar o vírus que nos ensombra os dias e a já tantos roubou a existência.
Ao acordar tinha presente todo o filme do sonho, apenas com uma ou outra branca que com Vossa licença preencherei a bem da lógica da narrativa. Ao rever o sonho não pude deixar de me rir, ainda que sem ruído, dado o humor que dele ressumou, sonho a que pela primeira vez logo resolvi dar um título que é o que, após alguma hesitação, está aí em cima. Título de fonia ambígua pois, feche o leitor os olhos e repita-o com normal fonação, que logo detetará (se é que já antes não tenha detetado, o que não acredito) a ambiguidade.
Como resulta à evidência, trata-se de um sonho em que entra um senhor chamado Morais, empregado bancário e algumas mulheres, suas colegas de trabalho, empregos estes que não resultam do título acima, mas aproveito para, desde já, ficar dada parte quais fossem. Também desde já refiro ser o Morais figura assim-assim e razoavelmente tímido.
O cenário é o das Danças Nicolinas em tempo de pandemia, portanto sem público, decorrendo o enredo como que projetado em ecrã de cinema (no sonho via-se o feixe de luz da projeção) e nas cadeiras da plateia estavam monitores de computador, separados por distância igual à recomendada e determinada como social, em cada um deles sendo visível o rosto de um espectador ou uma espectadora.
Na nesga de palco entre o ecrã e o início da plateia estavam, também devidamente afastadas, as duas figuras imprescindíveis nas Danças, D. Afonso e D. Muma, acompanhados de um convidado especial (tipo guest star) Gonçalo Mendes da Maia, aquele que, reza a lenda, aos 90 anos pelejou de rija e comprida espada em punho, contra os mouros, tendo contribuído decisivamente para a vitória que Afonso Henriques contra eles alcançou, o que lhe valeu o título de O Lidador e a morte em consequência dos ferimentos sofridos na batalha.
Estava o Morais às voltas com as suas tarefas de caixa, quando uma das mulheres suas colegas, Olga, mulher recatada e de máscara posta, se lhe aproxima e transmite algo que ele não percebe, pelo que o Morais lhe pede para tirar o adereço sanitário a fim de melhor a perceber; aí ela, qual filme de ficção, leva ambas as mãos ao centro da máscara e com elas a abre de cima a baixo, igualmente se abrindo todo o exterior do corpo, como se fosse uma casca maleável que caiu por terra, deixando à vista uma magnífica diaba, que não era vermelha senão nos lábios e unhas, nem deitava chamas pelos olhos nem hálito a enxofre pela boca, mas sim doçura por aqueles e apetecíveis fragrâncias por esta, sendo a sua cor do mais envolvente rosa forte, acrescendo que ostentava um par de minúsculos e harmoniosos corninhos, que acendiam e apagavam, alternadamente, em tom de verde óxido de ferro e azul elétrico; a ponta da cauda da criatura terminava, não em seta como é usual ser descrita ou representada, mas sim em macios pelos de vison, com a qual a maligna começou a fazer cócegas no pescoço do Morais, que por elas, e não por achar graça, se encolheu de riso. Outros atributos tinha a diaba, os quais me dispenso de descrever, adjetivando-os apenas – verdadeiramente diabólicos!
Ao tal ver o Morais, com os pés, empurra para longe a cadeira de rodas em que se sentava e, esticando os braços, brada – arrenego de ti Demónia, que me estás a amedrontar!
Aí para o filme e o Lidador, voltando-se para o casal anfitrião, comenta: cagão! havia de ser comigo! Enfiava-lhe a espada e dava cabo dela!
D. Afonso e Dona Muma, assim como todos os rostos nos ecrãs de plateia, soltaram uma sonora gargalhada, mostrando-se Gonçalo Mendes intrigado, e até um pouco agastado, com tal reação, ignaro que era dos subtis meandros da sagacidade interpretativa dos presentes física ou virtualmente.
De repente no sonho ocorre um salto e já outra colega de Morais, vestida com uma capa até aos pés e capuz que lhe escondia a cara parou, muito direita e majestosa, ao lado de Morais que, intrigado a olha, momento em que ela deixa que a capa lhe caia e surge, em todo o seu esplendor, Eva Perón, completamente imóvel à exceção dos olhos, adornados de longas pestanas que fazia subir e descer langorosamente ao ritmo do movimento das pálpebras.
Então a Eva do sonho transformou-se numa figura com rosto muito envelhecido, feito de uma ruga só, tendo esboçado sorriso revelador de dentição em péssimo estado. Morais, olhando-a, mais uma vez foi possuído por intenso pavor e apelou a que milagreiro santo ou consagrada santa lhe acudisse, tendo-se lembrado, ao acaso e porque mulheres eram a sua envolvência profissional, da Sãozinha de Balazar e da Madre Teresa de Calcutá. Foi esta que o sonho trouxe até junto dele e à vista dela foi a vez de a Eva Perón se tomar de medo fugir, tendo-se, antes de desaparecer, transformado, lentamente, primeiro em névoa e, finalmente, em fumo que se evolou completamente do sonho.
Foi quando outra mulher se aproximava de um aturdido Morais que ouvi o relógio de parede bater as quatro da madrugada. Acabara de acordar.
E foi por ter acordado nesse momento que fiquei capaz de lhes revelar, caros leitores e caras leitoras, este excêntrico sonho, induzido também pelo facto de ter sido sonhado em dia, ou, se se quiser, em noite de Carnaval, como induzido foi, consoante já referi, por vivências próximas e longínquas da vida.
Guimarães, 16 de fevereiro de 2021
António Mota-Prego
(a.motaprego@gmail.com)
Publicado em: 16/02/2021