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“AQUELE QUE FUROU O CÉU”

Bolama
Teste fixo 2 - worten

“O Papalagui”.
Corria já a década de oitenta do século transacto quando apareceu por cá a tradução dessa obra de

Decatlon

Scheurmann que, este ano, comemorará o século da sua edição.
Coisa nenhuma a tender para um irónico e crítico mito do bom selvagem frente ao civilizado europeu. Mas que desperta o conteúdo do interior das meninges para reflecções naquilo que, a hoje tão desacreditada e de gradual descrente significação teológica (por um tempo em que o fluxo binário das correntes energéticas que circulam pelos neurónios começa a ser apreensível por máquinas capazes de as concretizarem em actos efectivos), se concebia então como a alma. Esta, em crise como tantos outros valores que vão cedendo a uma praxis materialista que, da mais corriqueira vivência ao mais intrínseco do eu, também se vendeu à mercantilização (pelo falacioso império da sacrossanta economia e o seu apêndice financeiro), tem vindo a perder-se do sal da terra; deslocando-se para individualismos exacerbados, imediatistas e um pleno de satisfações sensoriais (as originais e como tais tidas ou, maioritariamente, as induzidas). Nestas, o hipócrita reino do consumo e das suas incongruentes promessas.
Mas, adiante que o gado é mosqueiro!
Voltando a Scheurmann, a brincadeira que arquitecta tem o condão de assinalar diferenças e questionar as razões de o serem pelo anedótico do confronto. Não pela cor da pele, ou de outros traços corporais que Darwin tentou explicar com a sua teoria de A Origem das Espécies, mas, apenas, pelo distinto desenrolar das respectivas sociedades. Dos diversos estádios que as conduziram aos patamares em que se encontram.
Por ser do momento e a talhe de foice, vale a pena focar a frase que há dias se ouviu, por quem a sintonizava, na nossa rádio e a propósito, ainda, do caso Marega. Disse então alguém qualquer coisa como “se o preto não está bem que vá para a terra dele”. Ora a terra dele é a Terra. E isto não é sequer um eufemismo, porque, como se tem entendido, vai para cerca de uma dezena de milhares de anos o sapiens, todos nós os humanos contemporâneos (pretos, brancos, amarelos, vermelhos, mestiços), proviemos de África. Dali viemos e para lá temos ido, numa miscigenação que a todos nos abarca e a genética vai confirmando. Assim e mais do que racismo, aquele dito não traduz senão um obsoleto espírito paroquial (que poderia ter sido dirigido, p. ex., a um bracarense), quiçá mesmo de um chauvinismo exacerbado (aqui, misturado com clubite). Levar mais longe a imputação é desconhecer a realidade, o estado cultural que se vive e fomenta este tipo de ditos; de um momento mundial de mais um pico de exasperação e conflitualidade que os media exploram à exaustão na sua só ansia da rentabilidade máxima, de lucro e, fundamentalmente, na evidente falta de sonho dos políticos em exercício.
Mas, mais uma vez, adiante.
Retornemos, pois, á aludida paródia. Às diversidades que pretende opor e, com isso, questionar as realidades de vivência de O Papalagui. E para tal, repete-se o mais uma vez, não se funda em uma qualquer distinção corpórea, seja ela de cor ou de outros traços fisionómicos, ou, até, de processamento do próprio cérebro. A distinção que ele engendra assenta apenas nas disparidades das duas culturas: a daquele querido civilizado e a sua, dele, sarcástico confrontador. E é esse o traço que, na verdade e no âmago dos relacionamentos, nos distingue uns de outros; nos tem distanciado pelas concretas disparidades que traduz e podem custar a ultrapassar. Sobre maneira e quanto a este último ponto quando, sobretudo, a elas se associa uma qualquer pretensão de superioridade de um dos lados. Esta, advinda de múltiplos factores, entre os quais avultam os ainda próximos da escravatura e da colonização, ou, talvez e fundamentalmente, a crença de que o bem estar material de que as sociedades industriais mais avançadas gozam, o primeiro mundo, se sobrepõem àquelas que não conseguiram atingir esse nível. Mas não só (rememorem-se as sucessivas, ao longo dos tempos e a terminar no holocausto, atrocidades sobre o povo judeu e o seu actual comportamento para com os seus congéneres palestinos).
Chegados a este ponto e sabidos da mesma casa comum, nós europeus e herdeiros de uma ética judaico-cristã (amarás o teu próximo como a ti mesmo), humanista (l’uomo universale), dos ideais revolucionários do fim do século XVIII (liberté, igualité et fraternité) e dos do após 2.ª Grande Guerra (Declaração Universal dos Direitos do Homem), temos a obrigação de compreender essas diferenças, respeitá-las e acatar os respectivos processos que as produziram e, eventualmente, mantêm; não os minimizando, nem tentando intervir neles à força e depois, com isso, fazer acentuar a aspiração que a diferente qualidade de vida faz germinar nos que a ela, essa díspar vivência e usufruição material muitíssimo mais abundante, desperta nos que lhe não têm acesso (lembrem-se os bens fúteis que a seguir à queda do muro de Berlim os habitantes da RDA adquiriam). Em qualquer caso e como se deverá entender, qualquer cultura e por mais rudimentar que nós a consideremos, se harmónica como quotidiano dos que a têm e praticam sinceramente, pode propiciar-lhes um grau de bem estar, realização e felicidade semelhante ao que, da mesma intensidade, se pode ter num qualquer país por nós considerado civilizado. É que as condições materiais de vida, no entanto e por si só, não justificam o homem (embora o possam legitimar no processo histórico). E sem ir mais longe e buscando um passado documentado, a crer nele e abreviando na extensão da particularização, lembremos S. Francisco e, antes e depois, um cortejo de eremitas ou determinadas ordens religiosas, ou similares não cristãs.
É certo que a globalização, os avanços da ciência e tecnologia contemporâneos, mais uma vez o processo histórico, mas agora só o ocidental, fizerem do planeta uma paróquia, um espaço de proximidade crido comum; o qual, no entanto, apenas se concretiza para alguns. Alguns esses que, entretanto, se aproveitam de todos, sem quererem saber desses outros a que vedam a igualdade (esquecendo, inclusivamente, o disposto no artigo 13 (I) da invocada Declaração Universal, que reza que “Toda a pessoas tem o direito de circular livremente e de escolher a sua residência no interior de um Estado.”).
Parece quebrado, assim, aquele fio milenar que conduziu e deveria prosseguir a evolução sequente do nosso sonho cultural, civilizacional europeu. Aquilo que o Poeta em verso tão popularizado, cantou: Sempre que o homem sonha/o mundo pula e avança … . E nós que nos queríamos o sal da terra, nós, não nos podemos esquecer de que “… se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para se lançado fora e ser pisado pelos homens.” (Mateus 5 13).

Fundevila, 11 de Março de 2020

Publicado em: 17/03/2020

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