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Carta aberta a quem tiver a bondade de a ler

Bolama
Teste fixo 2 - worten

Meus Caros Leitores e minhas Caras Leitoras

Recorro a vós através desta inesperada missiva, com o intuito ousado de, através dela e do mérito da boa vontade que possais ter para a lerdes, ver debelada uma das angústias que me atormentam, porventura idêntica à que vários de vós, talvez muitas de vós, experimentam.
Está ela já patente no início desta minha carta e é a angústia de não querer

Decatlon

cair na parcialidade de género, usando apenas um deles, como acontece, para além de outros casos, quando é dito que “O Homem surgiu à face da Terra há xis tempo”; convenhamos que nem sempre é fácil evitar a parcialidade, e rogo que convenha também na dificuldade quem tem uma posição absolutamente definida quanto à intransigente universalidade e absoluta constância da obrigação de igualação de géneros.
Por razões de equilíbrio relativamente ao género de cada uma das pessoas que leia estas linhas, é que, não devendo, até por razões estéticas e de bom senso descritivo (tinha escrito literário mas … nem tanto!) dirigir-me a vós usando sempre, imediatamente um após outros, o masculino e o feminino, pois sei que há sempre pelo menos um homem e uma mulher a ler-me, e também nem sempre sendo possível utilizar uma palavra que, simultaneamente e em total paridade, signifique essa mulher e esse homem, como por exemplo a palavra pessoas, tenho por adequado alternar, de modo aparentemente, mas só aparentemente, ilógico, o masculino com o feminino.
Não passou ao lado da vossa perspicácia, da vossa perspicobisbilhocácia, como diria um amigo meu que não é o Mia Couto, o facto de acima vos ter mencionado equilibradamente dizendo “vários de vós, talvez muitas de vós”. É aquilo que, na aldeia onde não nasci, se refere como paridade macho-fêmea.
Mas, mesmo aí, paira um espírito tacanho que tenta influenciar a comunidade, dizendo que isso de paridade só tem a ver com mulheres pois só a elas, ainda só a elas, acrescenta o mais avançado da aldeia, é conferida a faculdade de parir.
Também por razão atinente ao equilíbrio de género é que, por exemplo, e é só um exemplo, estando eu acompanhado de uma ou duas mulheres, ou de outro homem e uma mulher, ou só de uma mulher, tanto digo, nós os dois, ou nós os três, como nós as duas ou nós as três; outro exemplo será vamos todas, ou então, vamos todos: e faço-o de modo cuidadosamente alternado como, de resto, ao longo desta carta tenho referido, vice-versamente, em primeiro lugar ora o feminino, ora o masculino.
Naqueles casos, quando emprego o feminino, normalmente alguma das companhias, ou todas elas, se riem; mas já acontece muitas vezes alguém, ou ninguém se rir, seja porque já assumiu sólida posição quanto à intransigente – expressão que uso no mais nobre dos sentidos – igualdade de expressão de género, seja porque anda a refletir nisso, ou, na pior das hipóteses, porque tendo havido quem de início achasse graça à coisa, deixou de a considerar engraçada, facto a que as ou os demais não acharam graça nenhuma.
Repare-se o cuidado com que foram escritas as linhas antecedentes: nenhuma concessão a privilégio ao masculino ou ao feminino.
Mas, atenção! Por vezes, sob a capa de uma expressão de absoluta paridade, surge, camuflado, o benefício a um dos géneros. Sem dúvida que já ouviram, na política, ou nas reuniões de colegas de profissão, ou de gente amiga (o que eu pensei para aqui chegar …) um discurso de boas vindas, de encómio, de análise ou de despedida, ser começado do seguinte modo, alterando apenas os substantivos consoante a natureza da reunião: “Caros amigos e Queridas amigas.”
Lá está: eles são caros, e elas são queridas.
Porquê a diferente adjetivação? estabelece ou não uma distinção? ou uma hierarquia? a favor de quem? será subliminar manifestação de machismo? quem fica por cima?
Já me aconteceu de, em reunião de grupo que impunha oração prévia – no caso era prévia, mas podia ter sido intermédia, ou final – aquando da primeira intervenção, de um orador, e digo orador porque não era oradora, disparou como abertura, absoluta e louvavelmente respeitadora da paridade de género: “Queridas amigas e queridos amigos!”, um rapaz que casualmente estava a meu lado disse, voltando-se para quem estava do outro lado dele, “Vai chamar querido ao teu namorado!”, o que foi feito com a candura de quem diz vai chamar pai a outro, ou algo parecido.
A que acima referi, e esta carta dá conta pelo esforço paritativo que nela se deteta, é a angústia de que vos peço o favor de serem depositários.
Outras, e bem mais graves, me assoberbam, mas neste início de ano prefiro transmitir-lhes a referida, e do modo que transmiti, no intuito, certamente mal conseguido mas esforçadamente tentado, de lhes colocar nos lábios ao menos um arremedo de sorriso.
Votos sinceros de Bom Ano.

Guimarães, 06 de janeiro de 2020
António Mota-Prego
a.motaprego@gmail.com

Publicado em: 07/01/2020

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