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Assédio, léxico e papagaio

Bolama
Decatlon

Anda a atualidade inundada por questões e reflexões atinentes a uma matéria sobremaneira sensível: o assédio sexual!
Felizmente que atos de assédio sexual estão já definidos como crime e como tal punidos por lei.
Normalmente quando se fala no assunto, o que de imediato vem à mente são aquelas situações em que o criminoso é masculino sendo feminina a vítima. Com razão, julgo, pois é assim que acontece na grande, enorme, maioria dos casos.

A inversa vai fazendo, de modo ora tímido, ora nem tanto, o seu caminho, ou não fizesse parte da desejável e ainda reivindicada igualdade de género merecerem homens e mulheres exatamente os mesmos direitos, incluindo o de assediarem e serem assediados, assim como a identidade de censura perante idênticos comportamentos.

Decatlon

Por isso a lei pune a importunação sexual, ainda que só por gestos ou palavras, de quem quer que seja por seja quem for, do mesmo ou de outro sexo.
Acontece que a língua portuguesa, de tão rico que é o aseu léxico, provavelmente um dos mais vastos do mundo, tem, pode dizer-se, não só uma palavra para cada ideia, mas uma palavra para a intensidade de cada ideia, facto este que, abrangendo os vocábulos populares, mesmo excluindo o calão, atinge uma ainda maior dimensão.
Acontece é que, com receio das malhas da lei, corre-se o risco do desaparecimento do madrigal ou galanteio que, no comum linguarejar português, costuma apelidar-se de piropo. Aproveito aqui para esclarecer que tive o cuidado de consultar, não um, mas dois dicionários, e a palavra piropo lá está, precisamente com os significados que inicialmente enunciei.
Mas piropo, piropo, é coisa diferente de galanteio e madrigal, que figuradamente significa o mesmo, mas tem como sentido primeiro o de pequeno poema ou peça musical celebrando os encantos de uma mulher, ambas expressões que as asperezas de tempo foram desgastando.
Galanteio, ainda se vai ouvindo dizer, mas o comum piropo é algo de definição sofisticada, precisamente porque, divorciado completamente do madrigal, está num patamar diferente do galanteio.
O piropo tem uma genética impregnada de especiarias, eivada de alguma salinidade, que o coloca na no patamar da epiderme do desejo.
Todavia, não tanto como a expressão que só mesmo um povo como o nosso, tão dado à metáfora, que é a malha que os poetas tecem, saberia inventar: o filete.
Filete é algo de origem idêntica à do piropo, mas com uma composição muito mais rica em temperos, nomeadamente sal e pimenta.
Aliás, o piropo diz-se enquanto o filete lança-se.
Aqui temos um exemplo do que acima referi, quanto ao termos para ideias e suas diversas intensidades palavras específicas. Galanteio, piropo e filete são como, nas famílias, os exemplares tipo muito bom rapaz, o normal e o malandreco (aqui está outra palavra, parente de malandro mas com bem distinta intensidade significativa) .
Ora, se o madrigal está em hibernação algures nas dobras da história e o galanteio cai absolutamente fora da previsão penal, já quanto ao piropo tenderão alguns fundamentalistas a pô-lo sob a alçada da lei. Crime! dizem, mas sem razão, como muito bem defendeu essa ainda lindíssima atriz francesa, Catherine Deneuve de seu nome, que, carregada de experiência na matéria, declarou alto e bom som o quanto os piropos fazem falta, nomeadamente às mulheres. Tenho a certeza que a famosa e atraente atriz não se referia a ditos soezes, embora, creio, não excluísse os envolvidos por leve manto de atrevimento.
Mas o filete, lançar o filete, é ato que pisa tão perigosamente a linha de fronteira do punível por lei, que corre mesmo o risco de cair sob a sua alçada.
O filete tanto pode ser apenas maroto, estilo gourmet, como alcançar o pouco recomendável patamar da gula destemperada. Tanto pode referir tão só o acréscimo de secreção salivar à vista de iguaria que passa ao alcance olfativo, como expressar da mais vulgar maneira o desejo de lhe alcançar o sabor.
Ainda longe da reprovação legal, consagradora da reprovação social e fonte desta esforçada peça opinativa, o Sr Félix deu-nos, a mim e a um amigo com que então passeava a minha segunda década de vida, um sapientíssimo conselho.
Esclareço, antes, que o Sr Félix era, então, um velhote de cinquenta e poucos, que morava na rua de Santo António, algumas casas a sul daquela em que eu vivia, que se me dera a conhecer sendo eu ainda um menino.
Era um homem de estatura meã, assim como a minha, que me leva a ter por altos todos os que me excedem em altura e por baixos os que a não atingem; cara redonda, com cabelo muito agarrado à cabeça, olhos vivos a saltitarem por trás de grossas lentes enquadradas em aros redondos, nariz harmonioso em tamanho e feitio com o conjunto facial, tal como as maçãs do rosto algo avermelhado, sempre sorridente, mostrando uns dentes brancos mas, quanto aos superiores, afastados uns dos outros, especialmente os incisivos, o que lhe acentuava a marotice do olhar. Ao andar o Sr Félix deitava os joelhos um pouco para fora, o que lhe dava locomoção um nada bamboleante. Sempre corretamente vestido, nunca de fato mas de calça e casaco, gravata de nó fino, sapatos impecavelmente engraxados e, não raro, cobertos por polainitos.
De tanto nos cruzarmos, um dia, era eu ainda a tal criança, fez-me parar e disparou: Oh menino, como te chamas? Respondi-lhe, e de imediato prosseguiu: Queres ver um papagaio? Voltei a responder-lhe e ele pousando-me a mão (tinha além da aliança um grosso anel de oiro com uma pedra avermelhada) sobre o ombro, ordenou, Então anda daí!
Lá fui a casa dele ver o papagaio, com quem o Sr Félix me ensinou a conversar. Ficámos amigos: os três.
No Sr Félix a idade praticamente só se refletiu no modo de andar. Passou a caminhar em passos muito curtinhos e de elevada frequência, apoiado numa bengala.
De assinalar também, é que nunca deixou sem demorada observação e alargamento do sorriso, rapariga ou mulher que lhe passasse por perto e esteticamente lhe agradasse; após o cruzamento parava e ficava voltado para trás uns instantes, como que esquecido do mundo, porventura para confirmar que, na pessoa, a qualidade era um todo.
Pois um dia, aquele em que, já espigadote e acompanhado de um amigo, com ele me cruzei e o abordei para perguntas simpáticas sobre a saúde dele, da família e do papagaio, vinda dos lados da Foto Beleza em direção ao Soares Cabeleireiro, passou uma harmoniosa e bonita rapariga.
Esquecido das minhas perguntas, o Sr Félix, ao voltar-se de novo para nós, inquiriu: Quando quiserem galantear uma jovem sabeis o que dizer? Perante o nosso embaraçado e, para ele, ignorante silêncio prosseguiu, “Dizei: a menina é o mais puro elixir do amor…”.
A lei, aquela de que falei ao início, foi feita mas não para os Srs Félix deste mundo, se é que ainda os há!
                                            
Guimarães, 30 de abril de 2018
António Mota-Prego
a.motaprego@gmail.com

Publicado em: 01/05/2018

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